O Tédio

(São palavras de uma noite sem sono. Um dia sem inspiração. O tédio consumindo. Uma agonia crescente por não conseguir descrever o que desejava. Talvez não tinha nada para descrever, pois nada desejava. Por fim, com algumas migalhas, consegui reunir algumas linhas, depois alguns parágrafos, que dera nisso. São cinco parágrafos que não dizem muito, mas ao mesmo tempo, diz muito sobre mim.)

Tão mais perdido e frustrado, quanto a razão na efervescente chama da paixão. Talvez seja eu, mais uma vítima do tédio. Mais um daquelas presas, que esbraveja aos cantos, seus gritos de socorro, mas carregando a lacerante certeza, que não será ouvida. Silêncio. Um pássaro sem asas. Um filósofo sem palavras. Um velho sem hábitos. Frustrado ou entediado. Estou incapacitado de expressar o que comprime meu peito. Ouvira de alguns amantes, em uma noite dessas, o mesmo desabafo. Me disseram estarem sufocados, assim como eu hoje estou. Mas descreio que estivessem sufocados pelo tédio, pela agonia. O brilho em seus olhos. As palavras bobas. As carícias. Todo esse cortejo, denunciava a devastação do amor, o que se distinguia do que agora sinto. Sabia bem disso.

Na presença de mais uma noite. Uma noite dessas, que vem e que vai. Sem muito a acrescentar. Sem muito a dizer. Apenas se passa. Como se deve passar outras que vem. Logo irá amanhecer, e se costuma dar adeus a noite passada e desejar um bom dia. Um bom dia ao dia que nasce, de uma aurora tão bela. Mas então, temos o meio do dia. Se arrastando pela tarde até o inicio do anoitecer e então, se vai mais um dia. É hora de desejar uma boa noite e dizer adeus ao dia passado, e assim, continuara no amanhã, nos dias seguintes, no mês seguinte, quem sabe por mais alguns milhares de anos?! Um ciclo viciosa. Uma rotina castrante.

No relógio, os ponteiros se perdem pelas duas da madrugada. É uma noite fria. Algumas risadas vindo da rua. Uma música que é tocado ao fundo e mais nada. Mais nada que tenha valia. Deveria haver. Deveria haver algo com que se importar. Algo que tenha importância. Mas não. Não há ou não a vejo. Há apenas as quatro paredes que me cercam. Encarcerado?

Um passado vazio. Tão pálido quanto as paredes de agora. Tão sem vida também. Durar para sempre? Talvez. Felizmente ou infelizmente é o que não sei. Nestas páginas, estão esboçadas algumas frases. Sem sentido, deveras. Tentativas sempre em vão. Mas não desistia. Insolente. Havia algo que renascia no dia seguinte, na manhã seguinte, junto a aurora, alguns dizem de um sentimento que transcendia os desejos escondidos, tentando o mascara-lo com uma nova veste. Esperança, assim que agora o chamam.  Um sentimento em chegar até o fim da página, no final do dia ou da noite, e ter aquelas linhas inundadas com palavras que denunciavam um sentido. Mas não sei quando virá, somente sei que não fora esta noite, pois essa já se foi. O sol nasce.

E assim caminho, perambulando como um mendigo, àqueles que se encontram famintos pela cidade. Tentando escrever uma linha até o fim, e quem sabe um dia, poder ler uma página inteira, daquilo que se diz ser o livro de minha vida?!

Fiat Voluntas Tua

– O que deslumbraste, meu caro? À tempos estas a pensar, no que pensas? Algo que possa compartilhar? Um olhar penetrante. Talvez esteja decifrando o horizonte. O que veste, homem?

– Eu não sei, lhe respondi. Não sei o que vejo, ou não sei o que lhe dizer. O ser que derrama sobre o corpo, o vinho, me chama. Acenda uma vela, talvez seja isso o que, até o momento, consegui.

– Estás a delirar, alguém diria. Desconheço o porque, mas lhe peço que continue. Fale mais, fale-me o que toma sua visão. Como é o seu andar? Consegue me dizer?

– O que lhe importa o andar? Se o vejo apenas encolhido?! Num canto escurecido. És pútrido, como um cadáver no auge de sua decomposição. De um semblante sombrio. grunhindo alguns gemidos. Mas há algo a mais. Há algo em suas costas.

– Meu caro, atenta-me para a sua palidez. Uma carne gélida, agarra em seus ossos. Sentes algo?  Estás a tremer.

– Arde naquele peito que vejo – brinquei dizendo – talvez levaste de mim, a chama que me aquecia. Talvez o motivo de meu tremer.

Num instante, me vejo distraído –  Acale-se – Lhe encarando – Tente pelo menos, por um instante – Assim lhe pedi.

A vela jazia ao centro. Havia apenas meu semblante revelado pelo seu clarear. Vagueava pela profundeza do horizonte. Do breu que encobre a pequena cidade. Em busca de algo, deveras desconhecida. Irreconhecível, talvez. Mas, vagueio. Vagueio no olhar. Com uma esperança que me corroe

– Interessa-me a saber de seu nome.

– Que utilidade lhe teria, meu caro?

– Como devo lhe dirigir a palavra, senão anunciando pelo seu nome?

– Apenas pronuncie as palavras, carregadas de signos, que já não consiga suportar mais em seu peito, que sabereis que esta sendo dirigida a mim.

– Ouço um silêncio. Mas não um silêncio como compreendeste. Ouço o silêncio daqueles gritos que se perdem em marasmo, preenchido com palavras e seus valores inúteis.

– O que lhes atormenta, meu caro?

– Por que me fizeste tal pergunta?

– Assim a vi em ti. Estas ora disperso ora penetrante, como bem sabes. Em cada palavra, parece lhe fugir a vida. Estas…

– O que me diria – lhe interrompendo – que seria a vida?

– Devo-lhe adiantar que não é de mim tal resposta. Tão pouco a quero.

– Quem és tu, maldito? O que queres saber? O que queres de mim?

– Por que não fale mais do homem que viste? O que mais teria a me dizer?

– Aquilo que apenas lhe contei.

– Parece-me pouco. Não consigo o compreendê-lo. Conseguiste vê-lo novamente?

– Se me enchesse mais um cálice com este vinho, quem sabe?

Se presencia uma noite, que se essa memória não falhe, não me recordo de ter tido uma outra igual. Frio? Calor? Não sei o que sinto. Nada que me importasse. Aprecio o rubor em mais um cálice cheio. Seu formato arredondado. Como devera ser. O ergo. És doce, como sinto. Com um leve aroma de sangue virginal. Lhe deito em meus lábios. Deixo-o descer suave, por esse peito velho e rancoroso. Com os dedos envolta do cálice, igual o amante cortejando o corpo nu de sua parceira. O aprecio como o infante aprecia os seios de sua mãe. Nada mais além. Como poderia?!

– Há algo mais, além do que já tenha me contado?

– Há algo. Há algo que se esconde no semblante encolhido. Há algo atrás dos gemidos grunhidos. Há algo em suas costas. Há algo, em que deveste saber.

– Pois me diga.

Nesse instante, a vela ameaçou apagar. Vi a sua chama quase se desfalecendo junto ao vento que soprava. O brilho voltara a clarear, logo em seguida, o pouco que conseguira.

– Do pútrido odor que exalava, me disseste ser dos impuros. Dos corruptos e que não deveste me preocupar.

– Por que o viste encolhido? És frágil?

– Quieto, maldito. Quieto! Não sabes o que fala.

– Pois me conte.

– Os vermes. Os vermes o haviam encolhido. Reduzido a quase nada. Mas havia algo que não lhe comeste. Esquecera do peito ardente. A luz, que dele emancipava.

– Tinha me dito antes, dos gemidos grunhidos. O compreendera?

– Desde o inicio.

– Desde o inicio?

– Mas estava custando a aceitá-lo. Estive lutando contra isso.

– Não deveste lutar, meu caro.

– Render? É o que me propõe?

– Por que não? Desde sempre dera voz àquele que não lhe diz nada. Não lhe trouxe nada em vida. Sofreste em consequência disso. O que lhe impedira de dar voz àquele que lhe dirige a palavra agora?

– Talvez possa estar com a razão. Posso lhe pedir algo?

– Pois peça.

– Me instiga a entranha, não saber o nome com quem falo. Pior ainda, é desconhecer a face daquela, que comigo proseia. Por que se esconde?

– Meu caro, pois saiba que não me escondo. Mas que apenas não queres me enxergar.

– O silêncio que outrora lhe havia dito, não sei se ainda guarda em sua memoria. Mas este silêncio, era algo em que deveste me distanciar.

– Fora isso que compreendeste?

– Não somente. Naqueles gemidos, havia um som que conhecia. Conhecia bem. Quase sussurrando, pronunciara o meu nome. Com todas as letras. Em uma tonalidade que me estarrecia.

– Dará voz?

– Vejo-o rastejando. Com dificuldade. Murmura alguns versos. Incompreensível. Aquilo que rasga em suas costas, me assemelha à asas. Esta quase desfalecendo. Suas palavras, parecem preencher o meu peito. Me é estranho e ao mesmo tempo, não. Me revigora. Me fortalece. Deveria estar sempre esperando por isso. Mas não sei.

– Quereste desistir meu caro? Como sempre fazeste? Quereste continuar a ser mais um no rebanho? De uma índole tão baixa, quanto aos vermes que infesta a podridão?

– Lhe adianto que não. Estas a me tocar. Recita seu último verso. Há uma chama que retoma meu peito. Há um clarão em seu olhos. Me pediste algo em silêncio. Pois apenas o ouvi dentro deste meu rubro coração.

– E o que disseste a ele?

– Fiat Voluntas Tua.

– Amém

E nada mais além. Uma calmaria. Apenas vira meu corpo falecido, agarrado ainda ao cálice. Debruçado à mesa. Com a vela se apagando.

Quem sou eu?

Perguntei a mim mesmo – Quem eu era? – Infeliz pergunta. Estava sentado num banco qualquer, de uma praça qualquer deste vilarejo. Estava ali já havia algum tempo. Pois assim imagino. A sombra da árvore já tinha fugido da minha frente. Meus pés estavam descalços. Nus. O chão, frio.

José apareceu. E um bom homem. É como um amigo. Estava vindo em minha direção. Tinha no peito, alguns farrapos. Nas costas, um saco cheio. Presumo que seja de latinhas. Mas, e daí? Eu tinha uma pergunta e não sabia a resposta. Quem sou? Fora o que me consumiu quase a tarde toda.

José se aproximou. Sempre arrastando os pés. Algumas vezes percebia que era ele quem se aproximava, sem ao menos vê-lo. O som que fazia sua sandália lhe entregava. Mas agora não. Não havia nenhum som. Pois não haviam sandálias. Apenas, José descalço.

Sentou ao meu lado e ali ficou. Estava calado. O vi mexendo com a boca. Quem sabe tenha dito algo. Mas para mim, sempre esteve calado. Pois não o ouvia, nem me lembrei quando então despertei. Não foi a primeira vez que me despertei da maneira como fui despertado. José tinha uma mania. Alias, quase todos no vilarejo deveriam ter uma mania. Mas a de José me irritava. Não era legal ser despertado com José jogando água em minha cara. Mas dessa vez não liguei. José me chamou a atenção. Seu olhar estava diferente. Estranho. Notei que ele estava me olhando fundo e triste. Me encarando sério. Preocupado? Ninguém podia saber. José era fechado. Demorei algum tempo para ouvir algo dele. José estava sempre alegre. Sempre tinha uma piada nova. Pelo menos para mim, que sempre se esquecerá da anterior. Mas agora não. Ele estava diferente.

Me perguntou então, o que estive pensando. Respondi apenas que não sabia. Estava sendo sincero. Infelizmente. Ou talvez não. Mas fui sincero. José nada me disse. Ficou calado. Estava olhando para dois homens de idade.

José gostava de chamá-los de velhos. Devo ter copiado isso dele. Alguns não gostavam, outros, pouco importância dava. Que vida tem esses dois homens? José começou. Sempre estão aqui pela manhã, não sei se almoçam. Quando estou indo embora, eles ainda estão aqui. Os mesmos rostos. O mesmo hábito de cuspir o escarro escuro ao lado. As mesmas jogadas. Os mesmos sorrisos. As mesmas conversas. Que vida tem esses dois homens?

José estava inconformado. Imaginei que deve ter perdido alguma partida mais cedo. Pois assim ficava durante alguns dias, quando descobrira que fora derrotado no tabuleiro. Conhecia José. Ele era um bom homem.

Ele então se calou. Bom, acho que sim. Não gostava de interromper alguém quando falava. Pensei que José poderia me ajudar. Então que perguntei:

– José, quem sou eu?

Ele não precisou de muito tempo. Pois logo respondeu. Acho que tinha a resposta na ponta da língua. Ouvi então de José. Um velho. Era somente o que ouvi. Um velho. Tive que rir. José me acompanhou logo em seguida. Discordar? José estava sendo sincero, como bem sei, sou um velho.

Nos levantamos e nos pusemos a andar. José ainda deixou soltar mais algumas palavras para os dois homens. Mas estavam muito atentos ao jogo, para dar atenção à José.

Eu sabia que ainda não tinha uma resposta. Ou talvez tinha, aquela que José tinha me dado. Mas desconfio, que nem mesmo ele, estava satisfeito com ela. Andemos velho, foi o que José me disse quando percebeu que meus passos tinham desacelerados. E assim, continuamos. Não precisamos nos atentar para qual rumo tomar. Não tínhamos. Nossos passos não tinham uma direção. Fechávamos os olhos e só abrimos, quando lá estivesse. Era o único lugar que tínhamos. Que existia para nós.

José, se acomodava por debaixo da ponte. Era escuro. Tinha um espaço grande, e um amigo esperando. Perguntei um dia – Mas um cachorro, José? Ele, afirmando disse – E o nome é pitu. Não se sentia seguro em minha casa. Era o que me dizia, quando o convidava. Tolice. Como lhe respondia. Mas José, apenas ria.

Estava em casa. Neste pedaço de terra. Envolvida pelo nada. Ou quase isso. O silêncio daqueles homens, que estão sempre perambulando pelas praças do vilarejo, me é desagradável. Pobres homens. Mas não no bolso. Pobres em espírito. Uns coitados. Imaginam que são felizes. Ah! Mas a isso eles não são. Desconhecem.

José em suas últimas palavras, me fez uma pergunta:

– Velho, o que é a felicidade?

Respondi quase aos ventos, que felicidade é o estado em que estamos, quando desconhecemos o que é a felicidade. José não disse nada. Eu não me lembro, pelo menos. Deu as costas, e foi embora. Prossegui caminhando sozinho.

Estava anoitecendo. Tinha mais uma xícara vazia. Os mesmos farrapos que outrora. E tinha também os olhos se espremendo. Me desejei então uma boa noite. E adormeci. Nâo quis mais saber daquela questão.Nâo mais por hoje.

Trechos de uma vida

“Nâo é um dia como outros. Estava um pouco frio. Mas não era por isso que digo que não era como os outros. Tinha algo diferente. Mas eu não sei. Nâo sei explicar. Não me lembro do dia em que me importava com o dia que era. Um sábado. Uma segunda ou uma quarta. Um janeiro. Um agosto ou um dezembro. Nâo me importava.” Assim começa a carta descoberto por mim outra noite. Custei a lê-la. Deixei-a de lado. Mas essa manhã, não. Estava sentado em minha única cadeira. Acabara de despertar. Ainda sonolento. Mais atencioso. Suspirei profundo. Ah o ar do amanhecer! O ar da primavera. Me revigora. Meu peito se enchia. Tomei coragem.

As linhas seguiam “Mas esse dia me é diferente. Não lembro do motivo, mas é. Acordava sempre cedo. Mais cedo que em outros dias. O sol ainda se encontrava tímido, escondido atrás das montanhas. Mas logo aparecia. Sim, ele aparecia. O orvalho rastejava pela grama. Sabia que algumas pessoas viriam. Pois sempre eu as via.”

Alguns espaços tinha dado. E logo continuava a escrever “Algumas já começava a aparecer. Traziam junto, mais alguns. Eram crianças em meio a adultos. Adultos em meio a alguns idosos. Sempre calados. Cabisbaixo. Percorria junto, por alguns metros. Mas sem saber para onde iam. Não as acompanhava até o final. Acho que nunca cheguei até o final. Eu voltava antes. Não aguentava. Tinha algo me puxando. Algo que me impedia sempre de continuar. Nâo queria lutar contra aquilo. Nâo sei o porque. Meu peito era castigado violentamente, pelo coração, e isso me fazia retornar.”

De um susto, prendo a respiração. Olhei em volto. Fiquei calado. Em silêncio. Por um instante, parecia até que o coração tinha parado. Se calado. Mas, nada. Não ouvi nada. Estranho. Devo estar delirando, indaguei. Parecia ter escutado algo. Meus olhos voltaram para a leitura.

“Estavam caminhando lentamente. Passos curtos. Dorso encurvado. Alguns lacrimejavam, outros, se escondiam por trás dos óculos escuros. Estava eu curioso. Daí que avistei um garoto que se desprendia do rebanho. Pensei que ele poderia me ajudar. A mulher que o segurava a mão, custou a larga-lo. Parecia o querer ali do lado. Seguro. Mas o menino, insistiu. De passos curtos e lentos. No mesmo compasso que os demais. Caminhou. Me pareceu não ter para onde ir. Pensei que apenas queria distância. Estava errado. Como quase sempre, deverás. Olhei ao redor, e pela direção com que tomava, percebi que desejava por um pouco de água.”

Me pego olhando para a janela logo a frente. Não estou mais lendo. Estava distante. Num tempo distante. Alguns pássaros estavam sentados no galho, que mais parecia querer invadir esta velha casa. Tentei me recordar daquele dia. Do rosto do menino. Do tom de sua voz. Do dia em que aquilo escrevi. Ou do dia em que a história ocorreu. Mas, nada. Não me lembro de nada.

Me pus em pé. Ainda tentando me recordar. Não era algo que costumava fazer. Nunca me interessei pelo passado. Não me lembro de ter importado um dia. Talvez teve algum dia em que dava importância para isso. Mas não me recordo. Sei que hoje, não mais. Mas tinha algo me corroendo. Pois assim o senti. Não dava para controlar ou não queria, já não sei. Mas aquela carta, só me fez atiçar as entranhas e querer saber de seu desfecho e tão logo, do meu passado.

“Me aproximei.” Continua o trecho, agora já estava sentado e com a xícara em mãos “Com uma voz baixa, perguntei ao garoto:

– O que faz por aqui?

Notei sua tristeza, porém não a entendia. Tinha um casaco negro. Um olhar disperso. Parecia tentar sempre revirar o chão, onde pisava. Não me atentei a mais detalhes. Não me importava. Ansioso estou apenas pela sua resposta. De sua boca, não reproduziu nenhum som. Nem uma palavra. Apenas se encurvou. Quase se debruçando para saciar a sede. Esperava com que uma gota lhe escorresse pela garganta seca e pudesse distanciar a melancolia impregnada em seu peito. Mas isso, apenas fora fruto de minha imaginação.

– Garoto – perguntei novamente – o que faz por aqui? O que há em seu peito, que o deixará tão triste?

Ele me encarou. Quase não pude ouvi-lo. Apenas uma fresta no canto de sua boca se abriu, pronunciou então algumas palavras. Uma resposta que me pareceu ácida. Amarga. Pois logo em seguida, caminhei em retorno de minha casa, ou cabana, ou maloca, chame-a como quiser. Apenas retornei.”

Vasculhei. Tentei remoer tudo o que perambulava em minha memória e nada. Nada. Nada. Nada. Não me recordava de nada. Não aquilo que me interessava. Sabia que havia uma lacuna, um vazio imenso imerso nesta minha cabeça. Queria saber. Queria muito saber. Olhava profundamente para dentro das paredes. Pelos cantos, onde algumas velas, chegará ao seu curso natural. Olhava em volta. Em tudo. Na esperança de encontrar algo, alguma pista, e nada. Somente tinha vagas lembranças de alguns olhares tortos. Outros desconfiados. Alguma zombaria. Uma esmola dada. Uma porta que se fechava. Uma mãe que puxava seu filho pelos braços, quando me aproximava do parque. Mas eram coisas recentes, e a isso não quero me estender. Isso não tinha nenhuma valia no momento.

Tinha acabado a carta. Pelo menos não vi mais nenhuma palavra. Nâo que eu tenha procurado por mais alguma. Mas havia ao canto do papel amarrotado, alguns rabiscos em cima de algo escrito. Me chamará a atenção mais cedo. Pensei não ser nada, além daquilo que é, ou seja, rabiscos. Coloco meus olhos em cima daquelas linhas que iam e voltavam. Algumas vezes mais escuras noutras mais claras. Algumas também, em círculos. Mas não conseguia entender o que havia por debaixo delas.

Era o único pedaço de papel que tinha, ou que até então, tinha e imaginar que aquilo não me dizia nada, me incomodava. Me aborrecia. Aquelas linhas me fazera despertar algo. Talvez um demônio. Como exageram alguns. Mas sei que me fez querer saber mais sobre mim mesmo. Eu , esse cadáver adiado. Me encontrava desolado. O que poderia estar escritos naquelas linhas? Fiquei a imaginar.

Virei o papel e percebi que ainda restavam algo para ler. Estava quase apagado. Parecia não ter mais forças em punho quando escrevera. Tomei o último gole. Alias, quase nem deu para um último gole. Por um instante, olhei para o fundo da xícara. Me fez lembrar de algumas histórias que sempre ouvia por algumas praças do vilarejo. Esbocei algum sorriso ao lembrá-las. Então que percebi que ao fundo, havia alguém me olhando. Um olhar que me pareceu perdido. Pedindo por ajuda. Triste, mesmo havendo por entre a barba mal feita, um sorriso. A tristeza estava escancarada nela, não dava para negar. Mas não o conhecia. Acho que nunca o tinha visto. Um estranho. Olhei fundo. Me perguntei “Será que aquelas histórias eram mesmo verdadeiras?”

Debrucei novamente na mesa e continuei a ler “Os raios já tomaram parte do interior. Não há mais café nesta xícara. Está vazia. Como sempre as deixo. Com as vestes do dia anterior. Aos farrapos. Retomo mais um dia.” E assim termina. Ou não. Reflito por alguns instantes. Me olho, da cabeça aos pés. Imaginei estar com os mesmos farrapos que outrora contei neste trecho. Não sei. Os raios, como na história, também invadirá o interior.  Acho que é hora de partir. De ir. De retomar mais um dia. Mas agora, imagino que não mais tranquilo como em outros que já tive e que ainda me lembro.

O Andarilho

É um pedaço de terra em meio ao nada. Ou quase isso. Cercado apenas pelas arvores. Algumas jaziam mortas. Secas. As admirava logo ao amanhecer. Alguns pássaros gorjeavam por entre elas. É o que tenho. É o que considero ser suficiente. Não me importava ao luxo. Somente suplico pela luxúria. Ah, a luxúria! Mas, não ser dela, um escravo.

Eu era um andarilho por este vilarejo. Era assim que me viam. Pois era isso que deles, eu ouvia. Se pelas entranhas, me via em busca de algo., que em muitos vezes, nem eu mesmo sabia o que era, na flora deste pequeno vilarejo, era onde se podia encontrar as mais imundas histórias e seres.

Não era necessário garimpar. Era quando a maquiagem já não surticem mais efeito. Exalava sempre a podridão. Uma simplória verborréita, desgastante. Façanhoso. Nem um pouco agradável. Disso então, que encontrei a razão do distanciamento.

Aos farrapos. Quem me derá. Em outra época era tal estado que me amedrontava. Me despertava a respulsa. Eu era apenas mais um deles. Era mais um animal envolta de castelos de pedras. Construindo a ilusão que me fazerá sustentar. Tolice.

Hoje, agora aqui estou. Da luxúria tenho o que desejo. Nâo tudo. Insasíavel, acho que assim sou. Da luxúria, tenho apenas uma parcela. Compartilho esta ânsia, que me desperta em meio a madrugada. Ah demasiada ânsia, tão incerta e insegura. Mas efevercente.

Volto para a casa sempre ao ínicio do anoitecer. Mais parecendo um ritual. Agora me vejo deslumbrando o calor que evapora dessa pequena xícara. Uma vela em seu leito, ao canto. Com um desgastado lápis, rabiscando o papel enrugado. Numa cadeira já aos cacos e com a velha mania, de sempre acabar com as histórias pelo meio…