Para além das linhas

“Penso ser suficiente” resmungando, proferi tais palavras ao meu velho outro dia desses, e ele, na sua viciosa mania, (ou devo dizer apenas, mania, para assim não cair num pleonasmo vulgar?!) Puxou-me pelas orelhas, com os dizeres – Pois ao pouco, isso te satisfaz, inquieta-te e é isso, que desejam. É isso que querem de ti. Não mais que isso, nem menos, ou quem sabe, eles nem pensem nesse “menos”. Quando ainda atrever a pensar nesse estágio horrendo, que é o estágio do “suficiente”, saiba que pouco pensou, pois não creio existir, para aquele que pensa, aquele que tem por hábito, simplesmente, pensar, esse estágio que definem como suficiente.

São com essas notas rabiscadas neste velho diário, que ainda guardo como lembrança da minha tenra idade, que me pego a ler nessa manhã de uma sexta feira, que jaz gélida e a garoar, mas não estivera distinta de algumas outras desse ínicio de inverno, como devo lembrar à quem a isso um dia, se prestar a ler.

Diante à janela, a ter em vista a chuva, que lá fora, cai, sentado na cabeçeira da cama, no íntimo cômodo ao final do corredor, ponho-me para assim refletir sobre aquelas linhas. O vazio que me é inerante, como de praxe assim também vós é, faz com que eu esteja, nessa manhã, cem passos mais próximo ao horizonte. Cem passos adiante de outrora manhã. Talvez, seja pela razão de que, uma noite inteira, verozmente consumida pelo tédio, um marasmo desgraçado que costuma transformar jardins em pântanos, lembranças em cinzas e toda certeza em simplórias ilusões, fora suficiente para me deixar tal como pedaços de papeis em branco, quando o amanhecer assim resplandece. O que ali rabiscar? Ainda não sei. Sei que apenas um quadro vazio eu tenho, nessa manhã, um quadro vazio, sou.

Meu velho deveste estar com razão com aquelas palavras, deveste não, estava com ele a razão, mas isso somente fui constatar tempos mais tarde. Hoje vejo que elas, somente elas, não fora suficiente para mim, não passaram de apenas palavras vazias de um velho. Sim eu era um desses tolos que colecionava preconceitos, um mais tolo que o outro e isso me deixou cego para saber o quão profundo aquilo deveria soar. Não sabia eu como as conduzir para assim ter sua magnitude, me faltava algo que ainda não tinha ou apenas o que tinha, não me deixava olhar para o que me era dito.

Ainda me lembro daquele dia e no quão incisivo ele fora para comigo, tanto que aquelas palavras ficaram vagando onde até mais tarde fora transcritas naquele que seria meu diário, Sim, aquilo seria o ínicio do meu diário. Aquelas palavras, de algum modo que ainda desconheço, havia se instalado em minha cabeça, mas não fora suficiente para chamar a atenção dos meus pensamentos, eles,meus pensamentos ainda voavam desesperadamente, tentando se esconder de toda essa maldita preocupação adulta, de toda essa insana preocupação construída pelos adultos. Os compreendê-lo? Ainda seria uma tarefa dificil para mim, mas tarde me fizeram acreditar que seria enfim, inútil, ou seria esse mais um preconceito?

Meu velho insistia a me dizer, que os livros seriam como os monstros. Não que ele havia mencionado os monstros quando isso me disse, muito menos lembro de ter feito ele, diretamente, tal comparação, quem sabe, indiretamente? Sei que isso fora uma introdução minha ao contexto, isto porque n`um belo dia, quando próximo ao parque a perambular, como sempre faço, sou barrado por uma garotinha e como se podia constatar, estava assustada.

Depois de saber dela, que antigamente ela não tinha nenhuma imagem de monstro em sua cabeça e que isso a frustrava, pois sempre ouvirá histórias das amiguinhas, histórias que pareciam horripilantes, mas para ela não passavam apenas de histórias, algumas até bobas. Ela, como hoje acredito ser uma exclusiva virtude infantil, se prestou a ser curiosa. A ser curiosa o bastante para na noite anterior daquela manhã no parque, assistir ao filme alugado pelo irmão mais velho. O que poderia dizer é que de suas frustração, se transformado em medo. Pois agora poderia compreender o por que de suas amiguinhas, contavam aquelas histórias rangendo os dentes e com um semblante, imensamente apavorado.

Aquela garota havia, sem saber, me ajudado a enxergar o que meu velho, estava tentando me dizer à tempos. O Esqueleto-Nu, como nomeou ele as idéias principais, precisava sempre de uma roupagem para assim ser compreendida, como havia acontecido com aquela garota. Sem ter a imagem de um monstro em sua cabeça, ela não conseguia compreender o que seria enfim, um monstro. Ademais é o que ocorre com as idéias príncipais de um livro, ou me dando a liberdade, devo generalizar e dizer que é o que ocorre com qualquer livro, pois acredito ser esse, seu espírito. Pois assim como para um monstro, seja necessário uma mascára que corresponda com suas idéias, para enfim, poder causar o medo aquém o vê, assim também é necessário para com os livros aquém o lê, Pois, para o que serveria um livro, se ao menos consegue causar a quem lê-lo, o que se espera de um livro? O que esperar de um monstro, se ao menos ele se presta a assustador aquele que para dar atenção a ele?

A manhã enfim, começa a ganhar cores, o sol a raiar, os pássaros a gorjear por entre ás arvores, o nevoeiro que viera logo após o termino da chuva, havia se dissipado para tão mais longe além das colinas e eu ainda posso me ver, dianta à janela, sentado a cabeçeira da cama, no íntimo cômodo ao final do corredor, ainda a refletir, mas agora, sem a chuva que lá fora, caía.

O recomeço

– Assim fora e assim é. Vais e busca-te o que a pouco lhe tiraram, mas não esqueça-te, de antes enxer esse copo vazio, que como sabes, és uma desonra a qualquer homem que nesta espelunca, que teimam em chama-lo de bar, se adentre e logo, se senta com um copo vazio, és o mesmo que chamá-lo de baixo e ganhar algum punhado de olhares malditos. Então não perca mais tempo, pequeno homem, vais, mas traga-me antes, mais uma dose.

Assim fiz, antes de, por aquela porta, de madeira envelhecida, me jogar noite a dentro. Defronte aos pesadelos, cada passo jaziam a coragem, ou talvez, uma imensa tolice, soube que aquele homem, que não me importava sua aparência, como sempre é, apenas lhe dava ouvidos, assim como a qualquer outro ali, que se sentasse e exigia, uma dose, para espantar toda a amargura de amores, ou a dor herdado de um dia intenso de trabalho, ou ao menos, como ficava a imaginar, apenas para se prestar a ser aquela figura de homem, que os mais incultos insistiam em criar? Não sabia, apenas me indagava, apenas o que tinha de ser feito, fazia.

Mas agora, com apenas esse clarear que denunciava a lua nova, com alguns insetos noturno, caminho em direção a não sei o que, um rumo que se dispersa ao nevoeiro, que neste pequeno vilarejo, encobre todos os becos. Caminho sedento, cravado ao peito a sentença daquele homem, que me fizerá despertar, mesmo estando ele já embriagado com algumas outras doses, que havia lhe descido a garganta n`um outro bar, ou quem sabe, n`uma outra espelunca aquém também insistiam em chamar lhe de bar?! Mas sabia que estava com ele a razão, e não havia mas o que me fizesse me prender ali. E assim, caminho, em busca daquilo que se encontrava morto, e já comecera a exalar o seu mal-cheiro por onde se passava.

O Ritual

Assim a noite chegará. Teu véu negro que se espalhava nessa imensidão, trazia junto vagas lembranças. Lembranças de sua negritude que me incomodava. Mas me incomodava em uma outra época. Em épocas que não cabe aqui descrevê-las, de tão tolas que as foram. Hoje não, a admiro. Como pôde haver uma época em que isso me incomodava, me amedrontava?! Ficava a me indagar, e apenas um singelo sorriso de deboche me restava. De deboche de mim mesmo. Mas agora me compreendo. Compreendo aquela minha juventude, aquela minha infância. Eu era uma criança perdida, tão mais perdida quanto aquelas folhas que rodopiam conforme o vento, sem uma direção aparente, somente esperando para onde o vento irá lhe deixar. Eu era isso e acredito que muitos, ainda o são. Não crianças como fui, mas adultos, como agora os vejo.

– Quietos!

Forá o que escutará vindo dali de perto. Sabíamos que Sebastian e Christine tinha uma mania. Eles me diziam que era um ritual, me retratei em assim o chamá-lo, ritual. Digo, “sabíamos”, poís havia comigo, como companhia, Johaan, um jovem que vivera disperso, mas inteligente, não que eu acredite que dispersão é sinonimo de burrice, digo inteligente por que assim, Johaan era. Mas sua dispersão ás vezes o atrapalhava. Ainda me lembro, daquela manhã de outono quando a professora pedirá aos alunos, que fizessem um breve resumo do que fora a Revolução Francesa. Johaan estava calado, mas não prestando atenção no que havia sido pedido pela professora, estava navegando solenemente em seus pensamentos. Ele sempre me contará algumas de suas histórias, me deixará ler alguns de seus contos, imaginei que assim estava a fazer, pensando em mais um conto e por isso, não quis o atrapalhar. Ponderei-me de lhe avisar mais tarde, e assim o fiz. Mas não adiantou. Johaan esqueceu o dia que fora estipulado para entregar, mas nem adiantara também, se nem ao menos o havia feito.

– Shiu!

Um sussurro quase inaudível viera daqueles dois novamente. Sabia que era do Sebastian aquele pedido, pois era o que mais levará aquilo a sério. Christine não, ou imagino que não. Sempre quando os ponteiros chegará a se encontrar lá no alto, marcando a meia-noite, os dois, com uma taça de vinho cada, sentados ao redor de um círculo, diziam algumas palavras, não sabia bem o que era, pois nem me importava, mas sabia que algo diziam. Fiquei calado, pelo menos assim até Johaan me questionar. Eu disse antes que Johaan vivera disperso, não? Pois bem, assim ele estava. Creio eu que não ouvira o pedido vindo de Sebastian, pois logo em seguida ao meu súbito silêncio, Johaan me pois a perguntar.

Johaan era retraído, viverá em seu mundo. Alguns me diziam, nos corredores da escola, que ele era um autista, outros sabendo disso, o caçoavam. Era uma atitude desprezível, pequena, baixa, tão mais repugnante quanto se pode ver, em um cadáver sendo devorado pelos mais famintos vermes. Caro data vermibus se podia ler em suas lápides. Mas devamos ser parciais com aqueles vermes, não digo aqueles que caçoavam, mas aqueles que reduziam o que outrora, fora um homem. Era seu trabalho, sua função, e assim fechava o ciclo. Mas àqueles que caçoavam, não. Não dava para ser parcial para com eles.

“Vejo-a como é, isto é, sem valia nenhuma.” Assim respondi a Johaan. Ele havia me perguntado, que valia tinha na vida, “e como poderia ter?” Fora o que imaginei antes de lhe responder, mas não quis lhe dar uma resposta com outra pergunta, nem ao menos ficar lhe enrolando para expor o que pensava a respeito daquilo. Tentei ser direto e assim, creio que fui. “Vejo-a como é, isto é, sem valia nenhuma” Aquilo reçoou novamente em meus ouvidos. Pude me escutar em cada palavra, em cada som daquelas letras. Johaan como sempre sabia o que aquilo significava. Sabia ele também que eu estava certo? Não sei. Johaan suspirou e retornou ao seu mundo.

Sebastian e Christine havia terminado seu, ritual. Pareciam cheios de vida. Revigorados. Me diziam estarem novos em folha, com um espírito juvenil, forte e sedentos por novos desafios. Era o que me retratavam. Apenas balançava a cabeça, dando a entender que estava confirmando suas palavras, mas sabiam eles que não. Não concordava com aquilo. Apenas lhes respeitavam, somente. E assim caminhamos em retorno de nossa casa. morávamos juntos. Pois naquela pequena cidade, havia a conceituada universidade, onde os pais sonham em ver seus filhos.

De tropeços em tropeços, assim chegamos e nos colocamos a dormir, mas não antes de terminar com aquele resto de baseado, que havíamos largado numa outra noite dessas. Tragamos e tragamos, risadas descontroladas, tolas, descompassadas, assim foi, assim durou até cairmos num sono profundo.

Contos Infantis

Você um dia me parou na rua. Estava quase anoitecendo. Deixou suas amigas na esquina e me puxou até mais perto de ti, quase sussurrando me perguntou

– O que você faria se eu morresse?

Fiquei calado. Não sabia o que lhe responder. Olhei em seus olhos e eles estavam, fixados, penetrados, esperando por uma resposta. Eu teria milhares de respostas. Nâo me lembro se chegavam à tantas, mas tinha várias para te dar. Mas lembro-me de não ter conseguido, não conseguia responder. Ficava à imaginar. Ficava apenas a mercê da finitude da infante imaginação.

Compreendeste-me! não fora das perguntas mais fáceis. Você era o que tinha e por ser o que era, não conseguia pensar em não tê-la. É provável que nunca chegará a ler essas linhas. Talvez nem mesmo do que passara em minha cabeça naquele momento e isso me machuca. Queria, ao menos, ouvi-lá novamente, ouvi-lá fazendo a mesma pergunta. Queria que me parasse no meio da rua, como outrora fizeste, ter me olhado do jeito que olhaste, mas diferente daquela tarde, indo a caminho de minha casa, sua pergunta tivesse uma resposta.

Na tarde do dia seguinte, nos encontramos novamente. Você queria saber o por quê havia demorado para responder. Devo atentar ao leitor, que não me lembro se havia mesmo dado alguma resposta, mas caso havia, não me lembro dela no momento. As poucas imagens que ainda guardo na memoria, fora dela me parando, apenas ela e eu. Não havia mais ninguém,mais ninguém naquela pacata cidadezinha. Havia um olhar tristonho, o que fizeste-me acompanhá-la. A resposta da vez, era apenas que não sabia o que lhe responder. Mas isso não lhe pareceu suficiente. Nem a mim. Sabíamos que poderia ter feito algo a mais. Quem sabe estivesse esperando apenas por um beijo? ou quem sabe, por um abraço? E não por algumas singelas palavras? Pois o que me restaria se não houvesse mais as palavras?

Os dias se passam, assim como as noites e as madrugadas. A sombra daquela pequena árvore, naquele isolado parque, onde costumávamos ficar abraçados, esperando o pôr-do-sol, parece ter ido junto com o tempo. Agora apenas me resta (talvez, nos restam) essas vagas lembranças. Ah lembranças! Lembranças essas que ainda me faz viver.

Uma carta

Desperto-me. Ponho-me de pé e logo a caminhar. Cozinha e sala se misturavam. Se misturavam também ao quarto. Gostava de ainda falar a Johann, que morava em uma casa de quatro cômodos. Quatro incomodos cômodos, bem dizer! Johann não creditava interesse em minhas palavras. Sabia ele que nem mesmo eu, creditava ás vezes. Dizia apenas por dizer. Talvez apenas para descontrair. Mas sabia Johann, que havia um último cômodo, um último cômodo que costumava não comentar. Um cômodo que me incomodava, e por isso nada dizia-te sobre.

Debruço sobre a mesa. Arquejo sobre o pedaço envelhecido. É mais um daqueles pequenos retalhos de estória. Resmungo. Retalhos da minha vida. Cinzenta, deverás! Assim a vejo, não digo só a minha, mas assim vejo a vida. Cinzas dos desejos. Cinzas das paixões. Cinzas e mais cinzas.

“Teve um dia em que, em ti, confiei. Confinei a minha infância. A vi consumindo toda minha infância e tentando sugar essa minha nova fase. Sim, um dia em ti confiei. Confinei. Não dizia meus segredos, até por que, nem para mim os contava. Mas toda minha fraqueza, você soube molestar. Você a conhecia. Assim via o brilho em seus olhos. Tinha gosto em dela abusar, e não tinha o que eu poderia fazer. Não, não tinha, meu caro. O que iria fazer, se ao menos conseguia me levantar?”

Assim começara. Fiquei calado e indiferente. O frio aumentava lá fora e aqui dentro, eu tentava me aquecer. Encolhia os ombros, na esperança tola de me aquecer. Levei minhas mãos contra ao peito. Assim ficará para continuar a ler. Não sabia bem se queria continuar. Mas sei que não conseguia deixar aquilo de lado. Não novamente. Algumas lembranças sucumbem de minha mémoria e não poderia encarcera-las de novo.

“Acale-se! Acale-se por esta manhã.” Assim começava o parágrafo seguinte e não queria mais parar de ler. “Falaste muito na noite anterior. Acale-se! Assim um dia lhe pedi. Escorreu uma lágrima em sua face. A persegui. A vi percorrendo por todo seu rosto. Desviando ao contorno de seu nariz. Descia suave. Lentamente. Parecia lhe rasgar a carne. Carregava toda sua tristeza. Não conseguia lhe oferecer o lenço que jazia ao bolso esquerdo do meu paletô. Apenas a persegui, calado. Também sofrendo. Persegui até vê-la conseguir se saltar de seu rosto e neste chão, de tacos encerados, esparramar. Não me lembro de ter visto outra lágrima a escorrer. Talvez aquela foi a única, e espero que para mim seja a última.

Sabia a dor que trazia junto. Sabia também que acumulará mais uma para minhas noites em vão. Com lembranças me castigando. Uma esperança que se disperçava junto ao nevoeiro e que me largava, junto a mais um dose de whisky barato, toda essa amargura que devorava meu peito. Sabia bem disso, mas apenas lhe pedi um abraço. Esperava que não fosse o último, mas sabíamos, que naquela manhã seria, e que também aquela manhã poderia ter sido a última que me viste. Ela me abraçou forte. Demorou para largar para  que então, pudesse caminhar até aquela porta.

Há quem me olhava e comentava, ‘Você fez o correto!’ Mas eu não tinha tanta certeza. Não conseguia acreditar friamente nisso. Há também, quem me olhava e perguntava ‘O que agora irá fazer?’ E eu sabia? Lhe respondia. Nem tão pouco sabia, nem tão pouco havia planejado, mas quem sabe não seja essa a essência da vida? Nada saber nem nada planejar, apenas vivê-la? Quem sabe?! Mas sabia eu, que havia uma pendência. Algo que haveria de fazer, e assim talvez, poder quitar a minha dívida?!”

E eu ainda sei. Ainda sei qual é essa dívida. Assim olhando pela janela, me elucidei. Falei baixo, quase não conseguira me escutar. Mas aqui dentro de mim, havia um monstro gritando. Fiquei calado. Permaneci ali, parado. Quase imóvel. Em silêncio, completo silêncio. Apenas a chuva castigava o telhado, mas não havia nenhum barulho, nem havia a parede em minha frente. Não havia nada. Apenas eu ali, tentando remoer o passado.

Você um dia me olhou e serenamente me perguntou, quando seria o grande dia. Sabia bem qual dia ela estava comentando, sabia também, que aquele dia não iria chegar, não era possível. Mas não lhe contei. Não naquele momento. Os dias passaram, e aquela data no calendário, marcado com aquelas caneta marca-texto, me deprimia. Mas não sabia que poderia ser pior.

Era um infante abobalhado. Como muitos outros. Um bicho do mato, como minha avó costumava chamar. Era um tolo. Um verdadeiro tolo. As vezes ainda me pergunto se ainda sou.

Na véspera, quando o dia ainda gatinhava, tentando se livrar das garras daquela noite fria, ela se aproximou. Se aproximou me trazendo algum punhando de biscoitos e se não me falha a memória, me trouxe junto um copo com leite quente. Sim, ela me trouxe um copo de leite, bem me lembro agora. A agradeci. Ficou calada por alguns instante e em seguida me perguntou, me perguntou da manhã que vem. Do dia, que por ti, era tão esperado.

Engoli em seco. O leite já havia acabado. Gostava de tomá-lo com um só gole. Criança, eu era apenas uma criança. Tive que contá-la. E ao contá-la, sabia que iria desfazer o sorriso de seu rosto. Mas tinha que contá-la; E assim fiz. E assim, seu sorriso se foi, tão ligeiramente quanto minhas palavras.

Hoje sei. Aquele retalho trouxe ao leito, esse espinho que lacera vagarosamente o meu peito em silêncio. Deixa suas marcas e feridas. Feridas que ainda não cicatrizaram e não sei quando irá. Em todas as manhãs, aquelas manhãs que chegam quando passo a noite em claro, tento recitar os versos para mim mesmo, aqueles versos rabiscados num caderno que mantenho embaixo do colchão. Mas nunca consigo chegar ao fim. È dificil e eu ainda sou aquela criança que deseja pelo seu colo, mesmo estando você longe agora.

Me desculpa?

Ao amanhecer

Havia um sorriso. Um sorriso por de trás daquele semblante vazio. Por de trás daquela tez pálida, de lábios azulados. Havia um sorriso. Fora deixada naquele canto e assim ficara. Amanhecera e do mesmo jeito. estava. Quieta, imóvel. Contorcida junto a mais alguns. Parentes? Pouco me importava. Ali ela estava. Nua. Completamente nua. Exibindo todo o contorno de seu corpo.

Poderia ser mais um dia normal. Um dia de trabalho como outros. Passava pouco tempo naquela sala. Quase sempre, nada me interessava. Mas insistia em ali passar. Sabia que poucos ali, iriam. Talvez seja em razão do seu odor e de sua arte, que não era contemplada. Sim! Eu os via como arte. Poucos me entendia. Tão pouco me importava. O corte que rasgava seu peito, revelando todo seu interior, era algo que me enaltecia. Alguns contemplam o exterior e ignoram o interior. Ignoram todo seu esplendor, toda sua beleza, todo aquele vermelhidão me excitava. Mas eram poucas que me faziam avançar alguns limites. Limites que eu próprio criei.

Conhecia aquele rosto. Aquela feição juvenil. Me lembro de suas palavras suaves, de tendência a santa, que fizera os olhos, até daqueles que já eram casados. Não sabia se era seu propósito, Agia naturalmente e desdenhava daqueles de sua idade. Na tenra juventude, onde o corpo ardia em chamas, aquela garota conseguia se controlar e descontrolar ao mesmo tempo. O salto-alto, com mini-saias, um decote ousado, causava alvoroço, e não era para pouco. Como deveria ser? Aquilo excitava até mesmo os mais velhos, até mesmo aquele que prometerá abdicar dos desejos carnais. Tolice. Tolice para aquela garota.

Não sabia bem o que acontecera para tê-la por aqui, nem mesmo queria saber. Não disso! Pendurado em seu dedo do pé direito, havia um pedaço de papel rabiscado, bem provável que estivera ali, o motivo escrito. Mas queria contemplar mais o seu corpo. Contorcida nessa mesa fria. Não havia odor sendo exalado, ou talvez nem conseguira sentí-lo. Fiquei parado, ali, em frente a ela. Imerso nos mais insanos desejos. Nos mais profundos. Apenas a admirando. Fiquei assim por mais alguns minutos. Apenas deixando com que a luz piscando, deveras estar chegando ao seu fim. O fim! O fim daquela lâmpada mais não daquele corpo.

Ergo-te com cuidado. Corpo enrijecido.  Percebo que assim também estava meu orgão. Ereto. Envolvida em meu braços, como cortejam a dama nas valsas vienenses,  toco em seus lábios azulados. Os lábios que muitos desejam, ou desejavam. Os lábios que agora eu os tenho. Os tenho entrelaçados ao meu. Caio em profundo frenesi. Como iria me controlar?! Um silêncio e ela aos meus braços, uma sala ao fundo do corredor e ela a me sorrir, nua. Completamente nua.

A manhã se passará e ao inicio da tarde, Pedro veio até mim num desses botecos da cidade. Contei-lhe algumas histórias, mas não conseguia esconder minha euforia. Pedro percebeu e entusiasmado perguntou o que havia ocorrido. Ah! Como poderia expressar em singelas palavras tudo aquilo, que naquele velho e abafado cômodo ocorreu?! Não sabia! Não sabia como começar. Nem tinha palavras para começar. Apenas suspirei e como bom libertino, P. Imaginará. Imaginará o que havia ocorrido. Sabia decifrar os suspiros. Mas só não imaginara como conseguira aquele suspiro. Voluptuoso suspiro! Ao deleite do mais insano desejo.

O Senhor das Migalhas

Salvaram-se algumas migalhas. Tão pequenas e tão quase sem valia também, ignorá-las? Não seria uma má ideia, convenha-mos, o que me seriam essas migalhas? Centelhas ofuscado de um simulacro, apenas. Mas cá entre nós, o que hoje em dia tem valia? O que hoje em dia lhe importa? Talvez me conheçam por Senhor das Migalhas, aquele sem ambição diriam alguns. Tolos, assim eu vos chamo. Mas não vos conto sobre a tolice, não abertamente.

 

I

Numa manhã de outono, numa dessas como outras, com as folhas secas rodopiando conforme o vento as assoprava, caminhei até a banca, onde como dono, tinha o Senhor Batista, um homem que era respeitado e não era para menos, mas isso pouco importa agora. Batista me conhecera quando ainda era mais um jovem à brincar e amar por aquela praça e desde sempre, me entregara logo pela manhã, o exemplar de um jornal local e assim foi. Chegando na banca, Batista me entregou o exemplar que acabara de chegar, a manchete parecia querer pular para fora daquele pedaço de papel. Sabia que era um assunto importante, tão mais importante que a nota que fora transcrita logo abaixo, pelo que me pareceu. Não quis dizer nada a Batista, mas a notícia de mais uma vítima do conhecido Padre, me causava repulsa e não dava para imaginar, que havia alguém querendo passar um pano naquilo.

Cá estou, cá sempre estive, sentado num canto mau iluminado, o boteco me pareceu agradável desde a primeira visita e ainda é, devo lembrar. Se passara alguns meses, alguns anos, presenciei algumas brigas noutras, estive envolvido. Estive ao lado de alguns amantes e também de alguns tentando se reconciliar. Devo me lembrar do vinho pedido, numa dessas ocasiões, do presente guardado no bolso esquerdo do paletó, das carícias, mas a isso não calha sobre mais detalhes. Aqui estou, no mesmo canto, tragando o mesmo cigarro, pedindo a mesma bebida, que em outra época pedi a garçonete. Sim, bem me lembro, naquela época ainda havia uma bela moça, com seu traje de praxe e com uma voz doce à me atender. Não me lembro de saber o que veio acontecer a ela. Numa manhã qualquer apenas vi Jota aos prantos, chorando feito uma criança, ancorado no balcão. Nada quis lhe perguntar, apenas me lembro de ter ido ao meu canto, também nada daquela bela moça aparecer novamente.

O jornal aberto em cima da mesa, uma dose do conhaque mais barato e já a primeira bituca de cigarro. “O movimento que quer matar Deus” Assim a manchete dizia e para a página 3 me direcionava. As linhas que se seguiam da notícia, não era umas das melhores, algumas falácias poderiam ser evitadas, devo logo adiantar. Mas quem se importavam com elas? A vida é cinza e somente por sê-la, as pessoas tendiam a decorá-las ao seu bel-prazer. Desanimador, mas era o que em minha volta, se vivia. Retomei a ler, ainda faltavam algumas poucas linhas. Notei a presença de uma senhora ao meu lado. Não na mesma mesa, mas sim, na mesa logo ao lado. O buteco não era dos mais aconchegantes, nem dos mais agradaveis, não para aqueles que exigia alguma comodidade.

Poderia ter imaginado as últimas linhas daquela notícia antes mesmo, nela ter chegado, mas não as fiz. Queria pelo menos nessa, ter a sensação de ler algum argumento novo, ou esperava ser novo. “Se não há Deus, então tudo é permitido!” Sim, assim termina a notícia. A li novamente, “Se não há Deus, então tudo é permitido!” – E você discorda? – Alguém me perguntou. Não deveria estranhar, sabia que às vezes, pensava alto, tão alto que dessa vez, chamara a atenção da senhora.

– Poderia repetir a pergunta, senhora?

– Você discorda da frase “Se não há Deus, então tudo é permitido!”?

Devo adiantar que não vira em outros olhos, tão mais confiança quanto vira naqueles, naqueles olhos de tons claros e com algumas rugas o espremendo. Não sabia bem aonde ela queria chegar, mas apenas lhe respondi concordando,

– Sim, de fato, tudo é permitido. Se a senhora assim bem quiser, poderá neste mesmo boteco, praticar um roubo, basta que com isso esteja preparada para tal ação.

– Devo contigo concordar, pois se não há Deus e se isso não passa de apenas uma invenção, então não há céu ou inferno e não há algum julgamento após a morte…

– Sim, continue.

– Então, não haveria o que me impeça de praticar tal ato.

Batista também compartilha da mesma fé que a dessa senhora, mas se divergiam em alguns pontos, sabíamos bem que desta visão, muitos compartilhavam, mas não Batista. Era uma visão que temíamos, muitas das vezes, nos pegávamos a conversar sobre tal assunto, mas isso sempre depois do expediente. Batista um dia me fez a mesma pergunta que a daquela senhora:

-O que você acha, menino “Se não há Deus, tudo é permitido!”?

– Preocupante.

– Por que disse isso?

– Pois estas a me dizer que o senhor só é bom, se for o caso, na hipótese de que haja um Deus que irá te julgar e que com isso lhe dará uma recompensa, ou seja, o senhor só é bom em razão de uma recompensa, que nesse caso, será a vida eterna no paraíso.

Batista sabia que havia algo de errado, havia algo que ele não concordara, não comigo, mas com aquela frase. Aquela frase lhe castrava da ética e disso, Batista não queria largar, pois sabia que dela, algo melhor poderia vir. Ah! Se alguns poucos, hoje, tivessem apenas algumas migalhas das palavras de Batista, não iria mudar a nossa situação da noite para o dia, mas assim, seria o caminho a se percorrer, para que um dia melhore. Aqueles que são bons apenas pela recompensa, não era algo que enxia os olhos de Batista e devo dizer que nem os meus.

Naqueles olhos, naquelas rugas, na convicção em que pronunciava suas palavras, aquela senhora poderia ser o que menos me preocupava, se não tivesse o cargo que ocupava. Sim apesar de sê-la de um cargo elevado, isso não a impedia de visitar tais botecos e de prosear com aquele que num canto mau iluminado, em sua terceira dose do conhaque mais barato, ainda resmunga algumas fatigadas palavras. Era o que nela, eu admirava, sua simplicidade e sua humildade.

– Pois bem, não há nada mesmo o que lhe impeça de praticar tal ato, o que lhe impediria de tal ato, é e somente é, se por um acaso compactuar com alguma moral. Mas veja, não uma moral que necessite de uma recompensa para ser praticada, mas uma moral que independe do que irá vir, uma moral que é cega enquanto a recompensa, uma moral que é praticada exclusivamente por ser assim, desejada.

Ela sabia que tais palavras estavam corretas, mas parecia não querer largar de sua velha convicção, pouco poderia fazer. Sabia que isso era difícil de largar, de abandonar, para ela, se afastar disso, seria de alguma forma se afastar de seu Senhor. Batista um dia me alertou disso, alertou que poucos me dariam ouvidos e que não importava o que dissesse, quase nada iria mudar, e era isso o que me preocupava, não que eu sempre estivera correto no que dizia, mas o que era considerado correto dependeria da crença que a pessoa possuiria Batista não era assim, alguns até o desdenhava, o desconhecendo como um fiel, Batista me contara algumas histórias e das calúnias em que era envolvido.

É o último gole, o último trago no cigarro e para a porta caminho, largando naquele canto mau iluminado, com um copo vazio, cinzas e algumas bitucas, o jornal com a manchete quase saltando para fora daquelas linhas.