Marina, uma criança

– Mãe, o que faz de uma criança, mulher? – Toda confusa, a criança de olhos verdes claros, com algumas mechas sobre os olhos, perguntou.

A mãe – a dona Lucilena – que era bastante instruída, tendo se formado em biologia e que no curriculo já haviam alguns longo anos como professora, notou logo de cara que a filha não estaria interessada em saber todos os processos biológicos que levam uma garota a se transformar numa mulher. A mãe sabia disso e isso se notava naquele rosto todo confuso e já com alguns traços de desapontamento. A sua filha – a pequena Marina – herdou algumas características de seu pai, e uma delas é que ele não gostava quando um problema ficava suspenso, sem respostas, sem um resolução.

As duas – sua mãe com mais detalhes – ainda se lembrava do dia em que Marina ganhou sua primeira boneca. Algumas meninas nem se lembram disso, mas Marina sim. Não era tão nova quando fora presenteada pela sua tia no natal de 2004. Ali, Marina estava com seus 9 anos. Logo que sua tia lhe entregou o presente, Marina correu para o seu sofazinho (uma miniatura nos mesmos moldes do sofá de seu pai) que havia na sala. A boneca estava nua e Marina custou para vesti-la, tanto que por fim acabou desistindo e pedindo ajuda para sua mãe. Sua mãe Lucilene e sua tia Lúcia, jaziam de pé ao lado dela somente observando e tentando segurar algumas risadas. Não de deboche, era uma risada de orgulho de ver a filha e a sobrinha ali, concentrada, instigada com aquele bicho de sete cabeça (as empresas de bonecas, tem sempre um jeito novo de vestir cada boneca). Mas não queriam se meter naquilo, deixara Marina resolver sozinha, e assim ela fez. Resolveu sozinha pedir ajuda. E mesmo com o passar do tempo e por alguma razão que até hoje desconheço, as duas sempre caem na risadas quando se lembram dessa história.

Marina estava com seus 11 – quase para 12 – anos naquela manhã que viera do seu quarto até a cozinha perguntar para sua mãe, e a primeira coisa que veio na cabeça de Lucilene, fora que Marina estaria se perguntando de sua menstruação. “Afinal quando viria, como seria, o que iria fazer?” Aquelas questões deveriam estar perturbando Marina. Sua mãe se secou no pano que deixara em seu ombro e deixou o copo, que ainda estava pela metade molhado, de lado e se virou. Marina estava de pé, entre a porta e o corredor e sua mãe logo notara que os dedinhos de sua filha estavam vermelhos, um vermelho de sangue e no rosto de Marina não se encontrava nenhum vestígio de medo, nem de preocupação por ter alguma parte de seu corpo sangrando. O que via em Marina era somente um descontentamento por não conseguir responder aquela questão “O que faz de uma criança, mulher? Vamos, pense Marina!” Ela insistia consigo mesma antes de pedir, mais uma vez, ajuda a sua mãe.

Aquela imagem de sua filha, com as pontas dos dedos vermelho, a fez recordar de algumas histórias, e uma delas era a sua própria. Mas a que lhe tomou quase por completo sua cabeça naquela hora, não fora do que ocorreu com ela quando mais jovem, fora o que ocorreu nos primeiros anos de seu magistério. Ainda se lembra do dia em que uma aluna, toda embaraçada, cochichou em seu ouvido, que havia se tornado uma moçinha. Lucilene sabia o que aquilo queria dizer e tratou logo de disfarçar o máximo que conseguisse, para que a aluna pudesse sair da sala sem ser notada e ir até ao banheiro para resolver aquilo. As meninas sentiam vergonha desse evento tão natural que ocorre com todas as mulheres e que também, todos os meninos sabiam que isso, mais cedo ou mais tarde, irá ocorrer com todas elas. Mas não sejamos tão leve conosco. Nós carregamos no peito uma carga imensa de culpa nisso tudo, nessa idiotice. A professora sabia disso, mas aquela menina ainda não. Foi saber disso mais tarde quando a sua amiga espalhou a grande notícia para os demais.

Pobre menina! Foi o motivo de piadas durante alguns dias.

Pobre garotos e garotas que ainda hoje, conseguem ser tão tolas com essa questão.

Mas Lucilene ficou feliz com o que ocorreu naquela manhã. A conversa durou quase a manhã toda. Marina estivera sempre atenta, sempre perguntava ainda mais e sua mãe, não se negava a responder nada. Nâo escondia nada de sua filha. Nenhum detalhe. Se alguns pais ainda comentam sobre sementinhas e cegonhas com seus filhos, Lucilene notara que era hora de comentar sobre pênis e vagina com Marina. E assim podemos notar como foi aquela conversa entre mãe e filha.

No relógio, os ponteiros estavam marcando meio-dia e aquela era a hora em que Marina se arrumava para ir para a escola. Sua mãe mais do que contente por aquela conversa, olhou para Marina e antes dela deixar a mesa, perguntou:

– Então filha, o que faz de uma criança, mulher?

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O Pecado de Christine

 

“Projeto Cada Semana um Tema”

O que jazia naquele rosto, não era o que de costume se vê no semblante de uma jovem, mesmo vivendo numa pacata cidadezinha no interior de São Paulo. O semblante de Christine era o semblante de uma jovem doente, era como uma primavera sem cor – “uma alma sem dentes”, assim ela rabiscava o diário quando iria se descrever – Christine vivera com medo, acuada, mas não que ela seja tímida, era pior do que isso. Christine sofrera desde cedo as consequência da rigidez em que fora criada e isso se reflete na quase nenhuma amizade que tinha. Quem iria conseguir suportar, tendo sempre por perto a mãe de Christine? As poucas que insistiam, recebiam logo o cunho da mãe – “Essas mundanas”, “Essas perdidas”, “Essas imundas” – o que poderia fazer Christine? Nada. Abaixava a cabeça e voltava ao seu quarto para assim orar, nem sabendo mais o porque; Mas não a julgue. Não com essa pequena história que lhes conto. Christine era assim mas não era a toa. Sua mãe, essa sim, se orgulhava quando a filha rejeitava mais uma amizade promíscua, agradecia à Deus por não ter deixado que Christine se perdesse igual aquelas meninas. Podia se dizer de tudo daquela mãe, menos que ela não dava liberdade para Christine, isso ela dava e se orgulhava muito das atitude de Christine. Parece contraditório? A mãe de Christine apenas dizia que Deus sabia o que estava fazendo e isso serviria para enfim, encerrar a conversa de onde ela estivesse vindo.

Talvez o leitor possa imaginar como estava Christine naquela manhã plantada na sacada de sua casa. As lágrimas que escorriam, era o que Christine conseguia expôr a quem quisesse ver – o que de fato nunca havia alguém que quisesse ver, pois nunca havia esse alguém – Christine chorava em silêncio, soluçava pra dentro, tampava a boca sempre que qualquer sonzinho insistisse em sair daquela jaula que ela se tornou. Nâo queria que a sua mãe a visse chorando, pois Christine sabia muito bem que logo após o interrogatorio exaustivo viria as orações, e naquela altura Christine não estava mais disposta para isso. Não conseguia também, expressar a dor que sentia. Sorria sempre que a mãe lhe vetasse algo. “É tudo para o seu bem, querida!” Ela foi obrigada a acreditar nisso e com uma resposta já mecânica, Christine apenas sorria, um sorriso amarelo e foi assim também que mais cedo Christine reagiu à mais uma reprovação de sua mãe.

Christine não sabia como iria contar, até então havia guardado para si como um pequeno segredo – que alias, estava lhe fazendo bem – Queria um momento oportuno para assim contar a mãe sobre a comemoração que iria ocorrer no colégio onde ela estudava. Ela iria participar com uma dança típica da região. Havia ensaiado duro durante algumas semanas. Christine não se dava bem com a dança, isso logo notara mas não só ela e sim todos que a visse, mas Christine pouco se importava, queria aprender a qualquer custo a dança e assim mostrar para a sua mãe o que aprendera.

Apesar de todos os “nãos” da mãe e a conhecendo muito bem, Christine ainda guardava no peito uma síngela inocência, era ingênua, tanto que ainda acreditava que a sua mãe iria aceitar aquilo. Sua felicidade e até em algumas vezes, sua euforia, fora derrubada logo quando sua mãe soube do que Christine estava aprontando. Tratou logo de acabar com aquilo. – “Que pouca vergonha! Como pode, minha filha nesse sacrilégio?” – “Mas não é um…” “Cale a boca!” aos gritos ela logo intercalou Christine. Alguns poderiam dizer que a mãe de Christine estava muito indignada – o que realmente era verdade – mas havia algo a mais naquele grito que era omitido. Algo a mais em todo aquele espetáculo que havia dado. Havia passado um filme na cabeça de sua mãe e Christine sabia do que se tratava. Sabia todo o enredo e se assustava com o desfecho. Sua mãe se via presa naquilo e estava tão mais amedrontada quanto Christine. Ela não conseguia guardar a história apavorante para si, tinha que contar para sua filha e assim fazia, não deixava escapar nenhum detalhe, em muitas vezes parecia até mais fria do que de costume, não deixava escapar nada, nenhum ranger de dentes, nada.

Mas Christine não conseguiu suportar aquele “não”, muito menos o vexame que sua mãe havia a exposto em frente aos colegas. Voltara para casa correndo. Chorando muito. Se trancou no quarto e ali ficou. Sua mãe se ajoelhou e se prestou a orar durante a tarde toda. È aquele amor de mãe, todos conhecem, independente do que tinha feito, a mãe sempre quer o bem aos filhos e a mãe de Christine não era diferente. “Perdoe Christine, pelos pecados…” Fora a tarde toda implorando por isso. Christine do quarto ouvia apenas um sussurro inteligivel, mas podia imaginar o que estava fazendo a mãe e o que ela pedia. Christine não havia pedido muito, – alias nem havia chegado a pedir ainda – mas ela estava decidida. Seu quarto ficava no segundo andar e depois de secar suas últimas lágrimas, apenas se aproximou da sacada e fechou os olhos. Não aguentava mais aquilo tudo e aquele decisão de alguma maneira estava lhe confortando. Christine abriu os braços e não quis mais ter controle sobre seu corpo.

Sua mãe havia cessado a oração, estava crente de ter escutado um grito que vinha de fora, o que lhe pareceu um tanto desconfortável. Aquele grito lhe deu um frio na espinha e no instante que arcou com a cabeça em direção a janela, apenas um vulto ali passou. Antes de mais nada, apertou contra o peito o livro que tinha em mãos e de um salto, correu até ao lado de fora. Mas isso já era tarde. Apenas ajoelhou e durante toda aquela tarde e em seguida, por toda a noite, o que se arrancava daquela mãe, era apenas um suplico para que Deus salve a alma de Christine e não deixe cair nas mãos daqueles horrendos seres.

O último abraço

Hoje eu amanheci, numa manhã cinzenta como é a de São Paulo, um friozinho como é de costume nessa época, barulhos de carros ziguezagueando pelas ruas, em cada esquina uma nova discussão, hoje eu amanheci em meio ao que vejo ser minha rotina e isso me molesta simpaticamente.

Ela pede licença e tudo mais, se senta em meu sofá, mas logo vê que lá, onde se senta, um lugar inútil é para então me molestar, ela sabe onde me encontrar e portanto se levanta e caminha, arrastando o seu longo véu de cetim negro e fosco. Ao meu quarto agora a vejo, logo que me vê, um sorriso se abre. Que abominação! Assim exclamo e o seu bafo se choca ao meu rosto que empalidece.

Vasculhando as lembranças e as esperanças que ainda me restam, percebo o quão vãs elas eram e são, são tão mais vis quanto os que devorarão a minha carne, devorarão até ao pó eu retornar. Esses senhores que da morte surgem, na morte se faz presente, esses senhores que cujo nome é capaz de amedrontar o infante que acabara de nascer me abraçara até quando mais nada existir.

Ah minha insignificância! Ah minha insignificância! O que de ti faço? Sei que não há o que fazer a não ser a criação de um castelo de fantasias. Insignificância mas que não a condeno pois assim a aceitei, crua, nua, fria, ríspida, assim como ela deve ser. Abraça-me! Assim sem nenhuma lágrima no rosto eu lhe pedi, como acredito ser assim o meu último amanhecer. O meu último amanhecer nessa cinzenta São Paulo.

O Buteco

“Projeto Cada Semana um Tema”

Espero por mais um trago, mais um trago que lhe encha os pulmões e que faça-o estufar o peito. Espero por mais um trago desse senhor que ao canto está, sentado próximo ao balcão, num silêncio já enfadonho, acabará de chegar e não difere de alguns que por essa espelunca se passa todos os dias, nem ao menos se difere de mim, esse que vos conta tal ocorrido e que por algumas bocas desse vilarejo, seja chamado de andarilho, maltrapio, mendigo, imundo, miserável, desgraçado e algumas outras descrições que fora feita a minha pessoa durante o tempo que neste vilarejo passei. Dizem-me que fora por toda minha vida e para não perderem o velho costume, ainda completam – e que vida hein?! – num tom onde apenas desdenho e ao mesmo tempo serve-me como um convite para dar meia-volta e tomar o rumo que fora por mim desejado. Não que eu desistisse assim tão fácil de alguma conversa mas, aos que num pequeno vilarejo já viveu sabe muito bem que todos é conhecido por todos, sem exceção de ninguém e por tal razão é que prefiro tomar o meu rumo do que com aqueles que de mim zombam, desperdiçar tempo com uma conversa que sabíamos – pois não só eu evitara isso – que daqueles, se algumas palavras chegassem a serem inúteis, já seria um grande avanço, mas não se iluda achando que eles se importavam com tais avanços, quem dera ao menos se se importassem com algum avanço. A não ser que se considera aquele avanço que os empurre cada dia para baixo, este sim eles pareciam terem sempre êxito e quem sabe, até orgulho.

Mas quando uma prosa me parece ser boa, prefiro nâo desperdiça-la, e daquele senhor, que já na sua segunda dose esta, salta-me aos olhos que uma boa prosa também lhe seja desejado e dele, isso devo esperar – uma boa prosa, terei com aquele senhor – dizia isso a mim mesmo

– Favor! – Olhando ao garçom – Poderia servir a esse homem, mais uma dose! – Estava já ao seu lado, com as mesmas velhas vestes de sempre, as mesmas que me são úteis numa tarde gélida, ou seja, uma calça de um preto já muito desbotado, sapatos que poderiam dizer que não foram feitos para mim e nisso eu concordava – ‘não foram feitos mesmo’ com um sorriso confirmando – visto que de tão grandes eram, também usava um casaco que fora de meu avô, um que era de seu costume usar, estava velho, sim, estava! Mas não me importava com esse detalhe, me aquecia e era o que desejava. O garçom se virou e tratou logo de cumprir suas obrigação e o senhor notando que o pedido seria para ele, se desprendeu do que estava lhe atraindo a atenção e logo após de me agradecer, ofereceu-me para me sentar na banqueta a fim de lhe fazer companhia.

Era um homem de poucas palavras, se ainda me lembro bem – isso se essa memória não estiver me pregando uma bela peça – fora dos poucos que por este pequeno vilarejo vi passar e que ainda me prestou algumas horas de uma bela conversa. Lembro de ter durado a tarde toda, mas que fora logo interrompida quando a noite havia enfim, chegado. Ele teve de partir e assim fez. Não era desses que por esse vilarejo vivera. Fiquei a saber disso, logo quando perguntei de onde viera e outra também, se ele fosse desse vilarejo não iria me parecer um estranho como me parece. Mas no momento em que fiz a pergunta, ele me pareceu dar pouca importância, parecia estar fingindo não ter a escutado, desdenhava dela, olhava para tão mais profundo ao fundo vazio de seu copo quanto estivera olhando mais cedo, para frente, para o nada, para a parede suja deste buteco quando mais cedo me aproximei e lhe paguei uma dose. Mas depois de um breve instante de silêncio, ele apenas me respondeu que a muito tempo estivera fazendo a mesma pergunta para si e a de se saber, ele não possuía a resposta para a questão.

– Não sabeste de onde és, senhor? – Perguntei.

– Nem para onde irei, meu caro – Num tom que oscilava entre a frieza e a brandura.

Sabia eu que não era preciso saber mais nada a respeito dele. Nada além daquilo que era necessário, pois o que havia me respondido, era suficiente para me dizer o que ele queria dizer de si e era suficiente também, para confirmar o que eu imaginava dele. Um andarilho, um estrangeiro novo a cada amanhecer, farejando sem nenhum compromisso os quatro canto desse imenso planeta. Como gostaria de assim também ser. Mas assim ele é e eu, um andarilho neste vilarejo sou.

Com uma prosa fluindo como qualquer outra prosa que se tem com pessoas sensatas e de inteligência ímpar, sempre me faz crer que nenhum assunto será poupado, não diferente, naquela tarde, com aquele senhor, no buteco próximo a Rua 5, indagávamos sobre tudo, e quando digo tudo caro leitor, deve-se entender que era isso que iria pelo menos ocorrer se acaso o tempo não nos restringisse a somente o que seria possível conversar antes do pôr do sol.

De uma lúcidez que causava inveja, até aos mais jovens aspirantes a doutores, aquele senhor, que aos olhos desavisados poderia passar despercido por onde andaste, em alguns momentos em que se prestara a me contar um pouco de sua história, me pareceu não se preocupar com um assunto que havia me levado para aquele buteco.

Estava eu, mais cedo em minha casa, no cômodo ao final do corredor, com a porta fechada. Estava sentado num banquinho que tinham me presenteado em meu décimo quinto aniversário, um presente de meu avô. – Um presente de m-e-u a-v-ô – repeti a mim mesmo e com muito orgulho. Ainda guardo na memória aquele dia, quando na mesma manhã havia me sentado no banquinho mas nem sabendo que ele seria meu mais tarde. Ele, meu avô, um homem respeitado na cidade onde passara sua vida inteira, havia se dedicado alguns minutos para me contar alguns causos da sua grandiosa vida. Ah como ele se orgulhava disso! Dava para se ver em seus olhos, na forma como se pronunciava cada palavra, empregando nelas uma grande emoção. Não devo me esquecer que ao final dos causos, algumas lágrimas me restavam escorrendo pelo rosto e ele ali, com o peito estufado, como imagino que devia ser assim quando algum obstáculo lhe tomava a frente, assim ficou até quando já não era mais preciso começar uma nova história. Ele mesmo sabia que já não era preciso de um novo causo. O que havia contado era suficiente. Era um homem destemido mas hoje, posso apenas dizer que deus o tenha. – Agora voltando ao meu cômodo, onde se instalava um silêncio completo, mas não devo me esquecer de dizer, que um silêncio completo só se tinha quando não era perturbado por passinhos, baixinhos, de ratinhos, pelo teto de minha casa ou melhor ainda, por qualquer canto de minha casa, e quando não era perturbado pelos passinhos dos ratinhos irritantes, sou logo pertubado pelas assustadoras investidas daqueles cupins. Nada me chamava mais atenção quando ao teto olhava, ou qualquer outro canto e via mais e mais cupins beliscando sem parar a já, velha mobillia. Nada mais conseguia fazer na presença daqueles bichinhos xeretas.

Apesar de estar na parte da tarde, o cômodo não estava bem iluminado. – “O que é a vida?”, “De onde viemos?”, “Por que estamos aqui?”, “Para onde iremos?” e por fim, “Por que os tantos porques?” – Intrigantes questões para alguns e também fora para comigo. Não sei o que meu avô responderia, imagino que ele não se importava com isso. “Que importância tinha quando o que mais importava, era de que no instante que estivera, viver era o que seria mais necessário? Que quando o que tinhamos era a única oportunidade?” Imagino que seja isso o que ele pensava a respeito, pois era isso o que ele parecia querer me dizer.

Mas não, tinha que dar uma resposta a mim mesmo, mas não a tinha naquele momento e me parecia que não iria ter ali, naquele cômodo, sentado num banquinho que hoje, estava no seu terceiro aniversário. Terceiro aniversário também estava sendo a morte de meu avô. Depois de me contar sobre o que tinha sido sua vida, apenas esperou o anoitecer chegar para enfim se entregar por completo a doença que já havia lhe atacado dias antes. Tal doença fora sua companhia em seus últimos cincos anos, mas nos ultimos dias ela não deixava o em paz e ele lutava e lutava contra ela. Lutava com a mesma bravura que um jovem lutara para defender sua pátria, mas ele não aguentou, aquela noite fora sua última e nem teve tempo de me dizer o por que estava se rendendo para a doença. Fiquei num misto de desolado e de desconforto. Um vazio sem resposta tinha em meu peito instalado, mas o que doia não era o vazio que a resposta me deixou, havia um buraco do tamanho de meu avô rasgando o meu peito.

Tive que sair dali, daquele cômodo, daquele sufoco. – Sim! Aquelas paredes estavam me sufocando – Começava a ficar sem ar, as lembranças me devorando num silêncio que me provocava um frio na espinha que descia até os calcanhares. Um vento cortante me tomou de supetão logo quando abri a porta e pela fresta que assim surgiu, aquele vento bateu nesse corpo magricelo e comprido numa violência que não havia visto antes. Caminhei vagarosamente pelos becos do vilarejo e no primeiro buteco que encontrei, me adentrei. Alguns gatos pingados e um fedor de cerveja envelhecida sendo exalado por toda a extensão do buteco, um fedor azedo, que fez logo romoer o estômago, o que não poderia ser diferente, me surpreendi com o fato de ainda haver alguém ali dentro, me surpreendeu mais ainda, saber que o próximo a se sentar em algum banco, seria eu. Mas não só de cerveja aquilo estava sujo, vômitos e mais restos de comidas poderia ser encontrado facilmente. Esse buteco esta longe de ser um espaço agradavel, mais bem longe mesmo de ser agradavel.

Com um copo de aguardente – pois era o que mais barato tinha – fiquei num canto qualquer, num canto mau iluminado, onde quem da porta estava, apenas um semblante poderia ser visto. O tempo passava numa frieza que já nem mais me importava, passava tão mais sem graça quanto o vento frio e fétido que me cortava o rosto ali dentro. Então que aquele senhor entrou, não pareceu se importar com o mau cheiro pois logo uma dose de whisky pediu e perto do balcão, num canto qualquer se sentou. Tirou do casaco um cachimbo e em seguida, um pedaço de fumo. Tragos e mais tragos, que mais pareciam lhe revigorar a alma, lhe enchiam os pulmões e lhe faziam estufar o peito. Fiquei por alguns instantes ali, esperando por mais um trago e então que me levantei, e em sua direção fui.

– Favor! – Olhando ao garçom – Poderia servir a esse homem, mais uma dose – O garçom se virou tratando logo de cumprir as suas obrigações e aquele senhor, logo que notara que a dose seria para ele, se desprendeu do que estava lhe atraindo a atenção e logo após de me agradecer, ofereceu-me para me sentar na banqueta a afim de lhe fazer companhia. “Deve estar também querendo prosear” Pensei.

Não sabia de onde tinha vindo e nem para onde estava indo. Um andarilho. Um estrangeiro novo a cada amanhecer ele era. Como mais cedo havia lhes contado. A morte fora dos assuntos que não poderia escapar do escopo de seus contos. E nem eu iria deixar isso passar sem ao menos nada dizer a respeito. Parecia estar escrito na minha testa, gritando para ser lido, um pouco já manchado em razão de uma tentativa – que alias em vão – horas antes de responder algumas questões que vira e mexe, assombrava meus pensamentos.

Mas o que tinha vindo dele não fora das respostas mais aguardadas, nem agradáveis, assim dizendo. A morte que me parecia um assunto tão duro e implácavel, mas parecia algo sem valia nenhuma, vazia, insolente, coitada, um verdadeiro miserável. A vi sendo destrinchada em minha frente, na mais tenra tranquilidade possível, se alguém já se viu o quão despreocupado com o mundo ao redor estava quando aos beijos e carícias, suspiros e promessas com a sua amante numa tarde de sol intenso de primavera, poderá saber o quão aquilo foi para mim naquele buteco fétido.

Não consegui na hora o compreender, mas logo após que ele por aquela porta, caindo aos pedaços, saiu em direção desconhecida, ao rumo desconhecido, algo me fez enxergar com mais clareza as suas palavras, mas não somente as suas palavras foram suficientes para me fazer entender o que ele pensava a respeito, mas o que mais me ajudara a compreender foi por fim o seu estilo de vida, a sua fome. A sua fome por aventura e por mais aventura e mais, a cada amanhecer, era o que ele tinha para me dizer. Era o que ele gostaria de me dizer e agora penso que até o meu avô isso quis me dizer com sua história e suas histórias. Uma fome – Sim, claro! disse a mim mesmo – uma fome por aventura ou para ser mais claro, então simplesmente devo dizer que é uma fome por viver.

Ainda me restava um pouco de bêbida no copo, o copo daquele senhor estava vazio, de um salto e com um leve sorriso no rosto por aquela porta passei, a mesma que aquele senhor havia passado antes, ali passei talvez para algum dia voltar ou quem sabe, nunca mais! Havia me batido uma fome tremenda e ninguém mais poderia me negar um pouco de comida para safar aquela fome. Caminhei, sabendo logo que um rumo não tinha e nem queria isso para mim, não apartir de agora.

O Amor

“Projeto Cada Semana um Tema”

 

Pouco temos a dizer, quando o amor, esse sentimento sublime, nos afaga o peito, nos aquece, nos eleva para tão mais longe, que a nossa imaginação se torna tão mais simplória quanto as palavras, a razão, coitada! se afunda de vergonha de sua frieza.

Ah, o amor! O amor que do inverno, se faz verão, do outono, primavera, das lágrimas, sorrisos, dos gritos, sussurros. O amor que da certeza, se faz contradição, do discurso, versos, da amargura, compaixão e dos momentos, eternos.

O amor que não conhece cor nem credo, o amor que não escolhe Quem nem Quando, o Tempo, o amor desconhece, a Distância, não ouviste falar, o amor que ao silêncio suplica por suspiros demasiados.

Ah, o amor! O amor que não conhece fronteiras, nem dos tabus levantados. O amor que do iletrado, se faz poeta e do poeta, miséravel. Ah, o amor! O amor que não conhece o fim, nem para ti faz questão, o amor que nem o ponto final consegue lhe ser o fim.

Ah, o amor! Amor esse que aqui, ainda não senti, nem tive o peito afagado por ti. Amor esse que os poetas se vêem abobalhados e os amantes, desajeitados. Amor esse anunciado pelas trombetas, causando uma risonha inveja aos deuses. Amor esse que desdenha do coração, nem  de um valente se faz piedoso.

Ah, o amor!

Esse sentimento sublime.

Canção do Exílio

 

Ah, minh`Terra!

Minh`Terra

Que sabiá há

Não gorjeiam como cá

Nem cá, há palmeiras como lá

Ah, minh`Terra!

 

Ah, minh`Terra!

Mais estrelas há

Flores também há

Vidas como cá

Mas amores, como há

 

Ah, minh`Terra!

Cismar sozinho lá

Prazer que na noite há

Sabiá que não gorjeia como cá

Deus não permita-me que vá

 

Ah, minh`Terra!

Deus não permita-me que vá

Sem lá não atracar

Sabiás que como lá há

Não gorjeam como cá

O vazio

“Projeto Cada Semana um Tema”

 

– Viste, meu caro? Viste que a sombra daquela pequena árvore, se vai ao longe? Talvez não quereste mais a nossa companhia!

– Nada me estranha T., vedes que tudo à de partir um dia. Qualquer hora dessas. À qualquer minuto. Sempre fora assim, e penso que sempre será.

– Pois, veja! Veja como assim é o sol. Nasce por de trás daquelas montanhas lá longe. Vai surgindo por entre aquelas árvores. Os pássaros despertam, enchendo de vida a gélida floresta. No decorrer, ele, o sol, vagueia nessa imensidão azul, até o seu fim, lá do outro lado, até sumir por de trás daquelas outras montanhas…

– Mas sempre nos deixa lembranças – Interrompendo, W. observou- Nos deixa lembranças em todo seu percurso e não diferente, nos deixa lembranças ao seu leito. A bela paisagem de seu pôr, o pôr do sol, que encanta até mesmo os mais retraídos amantes, nos enche os olhos, aquece até os mais frios corações e assim se despede. Assim também, desperta o anoitecer. A madrugada. O frio.

– Sem esquecer também do amanhecer. Belos amanhaceres já guardamos em nossa memória.

– Sim, meu caro T., e não vejo que deva ser diferente para com a gente.

Sabia onde quereste chegar W. com essas palavras, havíamos n`outra manhã dessas, proseado sobre um assunto que muito me instiga, ou instigava? Não sei bem ao certo se tal vazio me é compreensível. Não havia de ter motivo para a tristeza nem alegria, como fui alertado por W. como deveria? Fui questionado, ponderei-me de não lhe dar alguma resposta, não naquela manhã. Não que eu não quisesse, apenas não a tinha. Havia me sumido algumas palavras, talvez seja em razão de que, por essa pequenez que é inerante as palavras, não fora possível descrever o quão aquilo me era estranho.

“O belo, tão mais belo de um pôr do sol, não é nada mais que aquilo que assim nós o convenhamos chamar.” W. havia me dito isso. Talvez deva eu dizer agora, que estavamos sentado a beira de uma estrada, tentando adivinhar (quase sempre sem sucesso algum) quanto tempo demoraria para o próximo carro cruzar a nossa frente. Um jovem que viera de alguma cidade grande outra vez, nos disse que considerava, esse nosso passatempo, bizarro por demais. Mas sabíamos que não era assim para nós. Não naquela época, a única época que tínhamos para assim poder nos dar atenção. Atenção a nós mesmo e ao que nos rodeio. Descreio que a isso, alguma vez aquele jovem se prestou a fazer em sua ainda curta vida. Visto que me pareceu despreocupado por demais, para com algo que me parece ter, uma demasiada importância. Mas talvez esteja ele com a razão, quem sabe não era assim que devamos nos encarar? Encarar o que nos rodeia? Acredito que W., disso discordaria, pois me lembrei de uma frase que para W. fora de muita utilidade, “Uma vida não questionada, não merece ser vivida” .

Hoje, não sei ao certo a quem essa frase deva ser empregada, nem de sua autoria, o pouco que posso dizer é que fora de um homem, que cuja a existência apenas temos a lembrança. Mas que sua lembrança ainda faz revirar nossos pensamentos, apenas isso que me recordo. Isso que me recordo das observações que W. havia me prescrito.

– Pois onde poderia chegar eu com as questões, sendo que ao pouco que me aprofundo, um vazio me é inerante, caro W.?

Estava tentando voltar àquela conversa, que aparenta ser muito do agrado de W.

– Talvez, T., deva ter chegado ao ponto em que as questões, encontrou com o seu limite…

Tive que olhar para o alto, onde algumas estrelas avistei. Lá em cima, lá no alto, grudadas nesse imenso véu que nos encobre…

– e apartir disso – W. continuou – deva-se questionar, o que a partir dali, deva ser construído.

Um ponto onde repousaríamos nossas questões e caminharíamos, enfim, tranquilos, tão mais livres quanto aqueles pássaros que agora voam em direção que me é desconhecida, um ponto onde eu soubesse o que sou e o que eu tinha em mãos?

W. e eu, nos pusemos a caminhar em direção a nossas casas, mas não antes de passar a taverna, onde se pode encontrar com a pluralidade que é, numa tentativa quase vã, ocultada nas manhãs de domingo, onde as portas daquela antiga capela se abre, para mais uma celebração. Um bocado de bêbida, alguma conversa fiada lançada aos ventos, antes de enfim, repousar para mais um dia de trabalho. Assim fora o resto daquela noite.