Na saia da sociedade

Fez surgir a luz. Vida a meio pé de altura. Um ou dois quadro ainda guardam metade de si na escuridão. O frescor toma as narinas e enche o peito de quem ali esta. Os raios contra a face que se enruga, o braço, instintivamente salta sobre os olhos, bom dia, rapazinho, a moça de sorrisinho cínico feito estátua, ao canto, ainda segurava a janela. Ensaiou um movimento brusco afim de escancarar a cortina. Bom dia o cacete, o jovem protesta, sem se importar com quem seja a autora daquela façanha. Ele resmunga e vira de lado, joga o travesseiro na cabeça, puxa o cobertor pra cima de seu corpo, e, nem preciso dizer que foi um bela de uma direta, ele, o jovem, quase gritando, lança, e fecha a porra dessa porta quando sair. Ela não atende. Na verdade nunca atende. Puxa então as cortinas. O quarto é tomado por uma forte luz do sol do meio dia. Não mais negro está aquele ninho de ratos. Os quadros por completo a vista. E se descobre mais dois em outra parede. Um, era uma folha verde e o outro, era abstrato. O jovem não resiste, se mexe furioso, mais parecendo que haviam acabado de lhe tirar algo de muito valor. Ela, segurando ainda aquele sorrisinho cínico, deseja novamente bom dia ao – e não devemos aqui omitir suas palavras pois em consequência disso alteraríamos a sua indignação nata, completa -, rapazinho. Sim, e como!? O jovem contesta. E de um salto se senta na cama, com os pés no chão fria. Se vê manco. A meia esquerda havia sumido. Mas que merda, ele exclama se bocejando. Não por causa da meia, mas por ainda ser cedo. Isso pra ele.

Esse é o Bruno, o que desperta todo os dias após o meio dia. A moça do sorrisinho cínico, é sua mãe. Mas isso pouco importa. Bruno trabalha a noite. A mãe também. Bruno estuda na parte da tarde. A mãe não. Ela trabalha em casa, ou nas dos outros. Chega sempre com dinheiro e isso é o que importa na família. O pai, trabalha. Aos sábados, hora extra, aos domingos, cuida de seus afazeres preferidos, encher a cara de pinga. Chega em casa aos tropeços, e violento. Agride a esposa enquanto o filho assiste inquieto. Isso quando era moleque. Agora revida. Toma partido da mãe quando, aos domingos, o pai chega quase carregado em casa. A mãe tem que trabalhar no dia seguinte, foi o que inspirou ele, Bruno, a não mais permanecer calado em relação as investidas do pai.

Mas vamos aos fatos reais. O Bruno não estuda a tarde, trafica na escola, e a noite, ganha a vida roubando. A mãe, desistiu de tudo. Decidiu ter um ponto na esquina próxima e ali, vai levando… a vida – ou o que lhe resta dela -, leva esporro e mais esporro e o que mais se espera do trabalho – pro trocadilho não passar em branco. É soropositiva. Tempos pra cá se vê coçando a genitália por conta de umas manchas que surgiu. O pai, nada a revelar, é isso que já contei ali em cima, junto com o que irei contar um pouco a frente, e também é o que se sabe e irei contar do filho e da esposa.

Mas não iremos culpar alguém. O pai, quando jovem, foi apresentado as putas. Teve seu primeiro porre aos 13. Passou o primeiro aperto aos 14. A vizinha depois de alguns dias deu o alerta de que havia descido. Não abandona a opinião até hoje, eu iria mandar ela abortar, ele sempre diz isso ao filho, não esquecendo nenhuma letra, com peito estufado e só faltando perguntar quando terminava de contar, sou ou não sou um Homem de verdade? – desculpem-me pela letra maiúscula, mas vocês devem entender.

O pai com 15 foi preso, traficando, pego em fragrante. Passou a sua primeira noite sentindo muito frio, batia o queixo e tremia, muito. Pediu desculpas aos guardas e levou um soco que chegou a estremecer três dentes. E essa não foi a primeira e única noite dele na delegacia e nem preso. Podemos notar isso pela falta de alguns dentes. Sua primeira overdose foi aos 18. Na veia corria a heroína, nariz sangrava neve, copo ao chão e rolando ao canto do quarto e na cama, já morta, uma jovem nua, dormia, carregando no corpo uma aparência horrível.

Ele foi considerado culpado. Passou alguns anos engaiolado. Saiu por boa conduta. Não aguentou mais ser estuprado, parando algumas vezes no hospital, gostou da garotinha? gostou de comer a garotinha, hein, seus desgraçado? Ainda ouvia tais perguntas em sua cabeça, lhe dava calafrios e tentava esquecer tudo aquilo, quando outra cena o aterrorizava, era enterrado nele o órgão ereto do parceiro de cela. Sem dó Sofreu calado. Ainda sofre calado. O pessoal aqui fora não sabe dessas histórias, ele não conta. Não sou veado, ele se afirma. Só não consegue assinar embaixo, pois é analfabeto. Nunca foi para uma escola. Achava perca de tempo. Tinha que ganhar o sustento. Tinha que ter dinheiro.

A mãe permaneceu ilesa, intacta, pura, virgem, até meados dos 14, quando conheceu uma amiga e essa amiga levou a um amigo e nisso, rolou uma festa, a bebida a acendeu, os olhos brilharam, a blusa não sabia mais onde foi parar, o sutiã não tinha mais serventia e logo também a calcinha, se viu dançando, outrora no sexo oral, ainda guardava timidez – e isso não deve-se a mim perguntar onde se escondia -, recuou e nisso, caiu no colo de outro amigo enquanto a amiga o beijava e outro casal, ao lado, se amaçavam. Ela sentiu alguém a agarrando e forçando uma penetração. Depois, apenas gemeu. A mãe dela nunca chegou a desconfiar – ou não queria desconfiar? -, fazia vista grossa sempre que a filha chegava em casa. Isso quando chegava. Até que enfim, cedeu aos fuxicos da vizinha. Tentou cura-la. Apresentou a Verdade e foi rezar. Outro dia estava triste quando chegou a amiga e perguntou o motivo, o padre, amiga, ela tentava dizer choramingando, ele me recusou, ela abaixou a cabeça, não ligue, sua boba, a amiga tentava conforta-la, esse padre só quer meninos….

Aos 16, abandonou a escola. Teve seu primeiro filho, que nem chegou a nascer. Não sabia que não podia ingerir bebida e nem usar drogas. Aos 17, o segundo. Carregou no peito, amamentou e mais tarde, foi tomado pelos agentes, a desculpa era que a mãe não tinha condições de cuidar do bebê. Foi internada, mas logo abandonou, disse estar curada. Ninguém desconfiou. No final do dos 19 anos, teve de abortar, e isso pesou muito pra ela. Sentiu a perda e foi derramar as lágrimas num boteco próximo onde morava.

Vem alguns, sempre com um pingo de esperança nos olhos, tentando animar ela, dizendo palavras de incentivo, oferecendo ajuda, abrigo, comida, escola, bebidas, drogas, vestidos, joias, sexo, roupas, e por fim, ofereceram a vida fácil. E ela caiu de boca naquilo. Só na vida fácil. Por que já não mais tinha esperança. Nenhuma. Nenhum vestígio de esperança. Já tinha um filho crescido – que não fora aquele que foi tomado -, e esse ainda era traficante e roubava, tinha um marido alcoólatra, que nela batia, espancava. Resumindo, ela levava e levou uma vida desgraçada, e não dava para esperar um resultado diferente daquilo que foi, com o seu total desânimo. Houve um tempo que tentou, lutou e lutou, mas nada. Levava ainda mais tapa da sociedade que a rejeitava e isso doía nela, a ponto de ser o que é hoje. Na esquina, por um preço acessível a realidade da vila onde morava, a mãe, aquela do sorrisinho cínico e que Bruno a chamava simplesmente de, você e que o marido, aos domingos, gritava por vadia e piranha, tinha por nome Sandra e atendia também por Sandra. O marido, Pedro. Era conhecido por, o marido da puta. Não lembra do dia que foi chamado de, o marido bêbado, mas isso são detalhes e como sabemos, pouco importa.

Bruno agora de pé, vestindo a camiseta, Sandra já pelo corredor em direção a cozinha, Pedro na sala, com os pés sobre a mesinha ao centro, chupando um pedaço de osso do frango assado do almoço, enquanto na tevê, o futebol da Seleção Brasileira e se ouve um grito, fadigado, Bruno corre pra sala já sabendo de quem foi e o motivo do grito, enquanto Sandra ouve da cozinha os fogos e o homem da tevê dizendo o nome do jogador e exaltando sem nenhuma preocupação na voz, É do Brasil! Chutou Sandra que nem corado o homem ficou e lança ao chão o que vê pela frente.

Serviço de quarto (+18)

Não se fazem mais moças como antigamente, afirmava Antônio logo após o coito, naquela ainda madrugada de quinta feira. Ele ao lado de um pequena moça, que não mais virgem era, sorrindo a Antônio e deslizando a mão pelo lençol na direção do bago murcho do homem, estava. Notou a mancha vermelha que surgia rente a sua, agora, explorada vagina. Antônio, que não era bobo, correu com o dedo pela borda daqueles tímidos lábios. Ela reprovou, olhou sério para Antônio, ele tratou de recuar, e a acalmou dizendo algumas coisas. Ela fez que sim com a cabeça, relaxou, Antônio então avançou até novamente àqueles lábios tímidos, em formação, com movimentos circulares, cada vez com mais vigor, Antônio mais parecia um jovem que acabara de descobrir os prazeres da carne. Não parecia que iria parar até um gemido inocente ouvir. A menina o soltou enquanto ao bago alisava. Da cabeça ao saco, subindo e descendo. As unhas, delicadamente pintadas, alguns desenhos bem bonitinhos, fez com que ela tomasse alguns cuidados.

A pequenina, que não parecia passar dos seus quinze anos enquanto Antônio, um velho conhecido da região, deva estar se aproximando do cinquentão, a viu a ponto de explodir novamente. Sedenta por mais um jato de porra, agora não mais apreensiva como antes, a menina tratou logo de subir em cima daquele velho barbudo, bafo de cachaça, dentes amarelos, mas cheio do dinheiro. Ajeitou o cabelo, se sentiu como a puta da novela das nove, olhou fundo para Antônio, ajeito o rabo ao pau do velho e sentou majestosamente, soltando um suspiro que mais parecia estar vindo de uma profissional. Antônio a agarrou pela cintura e só teve trabalho de acompanhar a jovem no seu, sobe e desce. Quando descia, Antônio a ajudava com uma certa força.

A porra ainda escorria daquela vagina enquanto a jovem tentava recusar um beijo de Antônio. Por fim, o velho desistiu e se espreguiçou na cama. Pra ela sobrou apenas o teto e depois de algum tempo, o ronco estranho do velho.

A menina estava ali a convite de Antônio, que se queixou a ela outro dia, dizendo que se sentia abandonado por todos e, principalmente pela família. Seus filhos faziam anos que não o visitava. Sua esposa jaz falecida. Alguns irmãos que sobraram, estavam levando a vida bem distante dali e procurava manter uma certa distancia dele. Ela, a jovem, se queixou do mesmo. E o pior, se queixava com os pais ao lado. Antônio, aumentava ainda mais suas lamentações. A jovem aos poucos, ia cedendo.

Mais tarde, alguns anos depois do ocorrido, a jovem foi expulsa de casa. Os pais religiosos ortodoxos frequentadores de uma igreja na mesma rua onde moravam, recusaram a presença daquela mundana dentro de casa. A jovem que já havia adquirido uma certa fama na vizinhança, tratou logo de pedir a Antônio um abrigo, pois vira e meche ele a chamava para uma noite da-que-las, e sempre que dizia isso, ele piscava o olho esquerdo enquanto deixava surgir no canto da boca, aqueles dentes amarelos.

Antônio não recusou, abriu as portas. Disse um Seja muito bem-vinda a encarando e ao passar, o velho ainda lascou um tapa na bunda empinada em razão do salto alto que a jovem usava. Ela sorriu. Jogou a mochila no canto do quarto e o resto daquela tarde se pode imaginar. Se imagina também como foram as outras tardes e tantas outras tardes, as noites nem tanto. A moça que agora era conhecida por Priscila, passava as noites na rua, no ponto que Antônio descolou para ela, o que acabou causando um fervor nas demais.

Priscila ficou famosa pela cidade e sua fama lhe trazia problemas. Estava ali fazia pouco tempo e já tinha clientes que as outras, umas mais velhas, cobiçava muito para que Antônio a apresentasse ao doutor. Mas não, era Priscila quem havia conseguido. E conseguido também, a raiva de algumas. Quem iria resistir a aquele anjinho, Antônio exaltava a moça quando as outras mulheres vinham reclamar. Vejam aquelas pernas, aqueles peitos, aquela bo-qui-nha, hum! Aquilo tem histórias pra contar, ele se espreguiçava na cadeira enquanto ouvia as outras baterem a porta, pisando alto de tanto raiva que possuía.

Priscila havia mudado, e bastante. Não mais era aquela criança criada no meio religioso. Era uma mulher. Mas não só isso, depois de alguns implantes, plásticas, academia e tudo mais de novo que surgia, Priscila havia ficado irreconhecível, só os que passara ao lado dela nessa transformação que conseguia reconhece-la. Os amigos antigos nem desconfiavam. Outro dia um deles contratou os trabalhos de Priscila. Ela chegou, tirou a roupa, eles transaram, ele pagou, ela saiu e nada, não a reconheceu em nenhum momento. Mas pelo menos saiu satisfeito.

Num outro dia, Priscila que despertou mais cedo que o de costume, se levantou da cama e percebeu que Antônio estava com uma outra pessoa na sala conversando. Priscila não gostava de ficar ouvindo por de trás das paredes, mas naquele dia fez. Chegou mais próxima e pregou o ouvido na parede. Ficou ali até ouvir um adeus e o bater da porta. Voltou pra cama, se ajeitou por debaixo dos cobertores e quieta pensou: Então há um cliente especial.

Antônio abriu a porta, Priscila se espreguiçou e tentando manter o olho fechado afim de parecer que havia acabo de acordar, notou Antônio um tanto pensativo. O que foi, ela perguntou, ele então deu as costas. Na sala, Priscila insistiu: O que foi, ele começou a contar. Priscila tentando não mostrar a euforia, apenas repetia, depois um tempo de conversa, mas é claro Antônio, eu sei ser discreta, o senhor mesmo sabe disso, pode ficar tranquilo, o entendo perfeitamente. E isso fez com que Antônio se tranquilizasse. Deu um telefonema e Priscila tratou de ir até o salão mais próximo para se produzir. Dar um trato no visual.

A noite chegou e Priscila foi ao encontro. Hoje não ao seu ponto de costume, mas a um outro lugar para esperar pelo cliente especial de Antônio. O pagamento era alto e Antônio tratou de tirar uma porcentagem gorda disso, mas isso não desanimou Priscila, pois mesmo assim ainda iria receber mais que costumava receber.

Ela na cama se ajeitou, ainda sozinha, tratou de usar o traje novo, uma lingerie preta que contrastava bem com sua pele branca, mas ela logo se encobriu com o vestido novo. Estava quente, abafado, Priscila se levantou e foi até a janela. A escancarou. Hoje todos iram ouvir os seus gemidos. E com o barulho que fez ao abrir a janela, Priscila não ouviu quando o cliente abriu a porta e só foi percebe-lo quando a agarrou por trás. Priscila se assustou. Ele não perdeu tempo – pois tempo ali, tinha um preço salgado – e a acariciou perdidamente. Priscila ao salto alto, se esfregava nele. Sentiu o homem tocando em seus seios, enquanto na bunda, o pau fazia volume. Ele a jogou na cama e no que ela virou, pode enfim ver a cara do cliente especial do Antônio. Ficou parado. Muda. Estátua. No popular travada. Ele tratou de abrir as pernas dela, e com elas longes, desceu com toda fome até a vagina de Priscila. Ela não conseguia fazer nada, olhava incrédula, enquanto o cliente ali, a chupando descontroladamente. Priscila não conseguia nem sentia a língua do homem dentro de si. Levou a mão até a boca, enquanto tinha os olhos arregalados. A respiração estava pesada, o coração parecia que iria voar a qualquer instante garganta a fora, e o homem lá, acho que estava acreditando que seria um truque da puta, algum charme que ele já estava começando a desconfiar. Um vento afasta a cortina de tom claro e Priscila vê o homem saindo de sua vagina, a olha no olho, já nervoso, olha aqui sua vadia, ele a ameaça, ou trata de fazer isso direito, ou… Ela deixa escapar uma lágrima, ou irei ter que fazer isso do meu jeito, Priscila não sabia o que dizer, e mais uma lágrima correu, e o que foi agora, vadia, ele perguntou, e ela não disse nada, não vai me dizer… a mais que filho da puta, eu pedi a mais experi… Pai, ela enfim se solta. Ele fica imóvel, sem entender, na verdade sem conseguir entender, o rosto já não mais tem o vermelho de mais cedo, empalideceu. Priscila não diz mais nada.

Toc, toc, toc e se ouve uma voz alertando ser o serviço de quarto, e o silêncio como resposta. Toc, toc, toc, serviço de quarto, vim trazer o vinho que havia pedido.

O Velho

Amanhece enquanto lá fora, a chuva, que me acompanhou pela madrugada, ainda golpeia meu telhado, furado, deverás! As crianças não me deram paz outro dia e na tarde em que prestei aos meus afazeres de cidadão, encheram o punho de raiva e lançaram ao telhado um enxame de pedras. O vidro da janela em frente a rua, inocente, coitado! Fora também vítima desses pequenos vândalos. Ainda guardo, ao canto, no quarto, algumas delas, algumas brancas, redondas, outras acinzentadas misturada num azul, as britas é as que mais tenho. O teto, de laje, encharcado, faz brotar e agora aqui dentro, mais parece não haver cobertura. Um pingo acaba de me acertar a cabeça. Malditos, eu exclamo. Eles terão que me pagar, malditos, praguejo.

Arrasto o pé, não mais cuidado tenho, não mais escolho o seco, não mais há o seco, a casa não mais parece casa, apenas parece que tenho as paredes, brancas, ou melhor, em outras épocas fora branco, na estante, embolorada que na sala há, um retrato antigo. Eu parado, em frente a casa, sorriso largo, apontando vagamente a casa, de pintura branca, porta laranja, janela de vidros novos, um jardinzinho na frente, o passarinho que quando mais novo, em meu colo caiu, abandonado, perdido, piava, enquanto os pais, lá longe voavam, naquele dia, bem me lembro, piava vigorosamente enquanto ao peito, o sol batia, hoje, a gaiola vazia está, não aguentou a fome e a sede e se foi, e que alias, fome e sede também me afronta, coitado daquele pássaro, quanto amor ele tinha, um dia, com a portinha aberta, hesitou e voltou a empoleirar e ali ficar, até não mais aguentar.

A porta estala, não tenho mais força para segurar, caí no mato que cresce, rente a porta, rende a parede, rente a casa do lado de fora e eu aqui, olho preocupado, para a chuva que não me parece que irá acabar, não tão cedo. No portão, não o meu, não mais tenho, desde que partiu o último cão, mas no portão, que do outro lado há, a vizinha, que fuxica aos cotovelo, parada está. Sombrinha lhe encobrindo, ela olha e se fixa nesta carcaça, na qual eu sou. Bom dia eu ouço, bom dia eu respondo. Para onde vai me pergunta, para onde devo ir eu respondo. O correios me entregou ontem a carta, dizendo que atrasado o imposto está, olhei bem fundo ao carteiro e ele percebendo, estirou a mão me pedindo para acalmar, como ter calma, meu jovem eu o encarei, ele sábio como é, se calou e partiu para a casa ao lado, para outra carta entregar.

No ponto, onde o ônibus irá me pegar, três jovens, bem vestido, está. Um olha de lado, enquanto o outro se desvia inquieto, o terceiro por cima do ombro, me olha, analisando da cabeça aos pés. Lembro de outro dia, no parque, no final da rua onde moro, eu parado olhando aos pombos, que lá ao se jogar o milho, se amontoa para então, se deliciar, veio um homem, de aparência serena, um gorro na cabeça, um pedaço de lápis entre os dedos e na esquerda, um pedaço em branco de papel. Pois sim, eu lhe respondo, senta em minha frente e depois de uns rabiscos, meu retrato parece ali estar. Mas isso não parece agora estar acontecendo. Não vejo mais o gorro, nem lápis muito menos, um pedaço de papel na esquerda. Um deles me acerta o rosto, enquanto o outro, vindo correndo, puxa um rasteira. Caio do jeito que dá, desengonçado e um estalo ouço. Um pedi para parar enquanto, se não me engano, eu adormeço.

Acordo e logo o teto reconheço. Encardido, um negro fedido, enquanto ao canto, um verde musgo, me perco. Olho ao braço, esquerdo e branco está, pesado que não consigo o levantar. Um gemido surge, da dor que agora me toma. Ouço passos ligeiros e logo, a vizinha, com um pedaço de pano quente, em minha testa o deixa, quieto José, o senhor tem que ficar quieto, eu a ouço, o doutor pediu para eu ficar aqui com o senhor, desgraça eu exclamo, está se sentindo bem, ela me pergunta, estou sim, respondo enquanto me ajeito.

No anoitecer ouço vozes, choros, que de algum cômodo faz surgir, Não as reconheço, mas depois de um tempo, uma lágrima agora tenho. Ele não está aguentando, eu ouço, de peito aberto, a dor que lateja de meu pulso azulado, me faz querer saber, o que aqui fazem, quem os tirou de seus aposentos, lá fora parece chegar mais um, ó céus! O que agora? Da última vez que vieram, festejamos a primeira parcela de minha aposentadoria, mas e agora, o que querem, se nem ao menos consigo me levantar desse pesadelo?!

O Coveiro

– Aproxime-se! – Estirando a mão – Não tenha medo. – Insisti.

– E era para ter?! – A jovem sussurrou.

Estávamos próximo ao cemitério, mas antes tínhamos que passar por riacho. Um lugar que provocava medo em qualquer um. Fedia e o mato alto, em volta, só ajudava ainda mais, para assustar quem ali, se atrevia passar.

– Me dê sua mão… vamos, me dê… isso…

– Por que me trouxe a esse lugar?

– Mas.. você não havia me dito que, queria por que queria, assistir o nascer do sol?

– Sim, mas é que… – Afastou o cabelo de seu rosto -, que lugarzinho mais complicado de se chegar

Eu ri

E ela acompanhou logo em seguida

– Você tem razão. Mas é que aqui, é o melhor lugar que conheço

– Então assim espero que seja!

Estava um silêncio. Um completo silêncio, dando até para se escutar o coração batendo contra o peito dela, – E que peitos!. Era um jovem, nos seus dezessete para dezoito anos, se vestia de preto e quando não era isso, pelo menos alguma outra cor morta, a encobria. O espartilho sempre a deixava com esse belo par de seios, empinados. Ah, que tesão ela ficava.

– Havia me dito esses dias, que quando mais jovem, dava bastante trabalho aos seus pais, é verdade mesmo? – Ela curiosa, perguntou

– Sim! É verdade.

– E o que fazia?

– Das coisas que me lembro… é… já passei dias e mais dias, fora de casa

– Para onde ia, o que fazia?

– Eu?

– Claro, oras! Ou há mais alguém aqui?!

Rimos

Mas do nada a jovem se calou.

– Shiu!

Ela fez com a mão um sinal para que eu também ficasse quieto. Olhos atentos. Evitou o máximo de fazer qualquer barulho.

– O que, o que foi?

– Shiu! – Apenas

Olhei ao redor, tentei acompanha-lá para onde estivesse olhando, mas nada, apenas uma escuridão via. E lá do outro lado, algumas poucas neblinas estavam encobrindo algum punhado de sepulturas.

– Esse lugar me dá calafrios – Ainda olhando distante.

– Não há nada de mais aqui

– Mesmo assim… tenho calafrios

– Se quiser… podemos ir embora,

– Não. Por favor, quero muito assistir.

– Mas e o lugar?

– Ah! Isso passa.

Ajeitou o casaco, encheu o copo descartável com o vinho mais barato que compramos e o bebericou.

– Puta que pariu! – Ela de imediato contestou e não deu para evitar a careta que logo surgiu.

Eu ri.

– Esse vinho é dos bons! – Ela disse

– Com toda certeza.

E rimos.

– Mas então, o que você fazia nos dias em que ficava fora de casa?

– Oi?

– Quando mais jovem… ficava dias e mais dias fora de casa… o que você fazia?

– Ah sim. Então… como sabe aprontei muito. Tem coisas que não gosto de lembrar, outras ainda me causa algumas risadas mas em outras, apenas me lembro de alguns detalhes…

– Como o que?

– Alguns amigos, bebidas e mais bebidas, alguns consumindo drogas…

E parei, me virei para ela e a alertei:

– E não se aproxime disso.

– É, já me disseram isso… fica tranquilo

– Pois bem, lembro-me de estar saindo da delegacia uma vez

– Já foi preso?

Agora mais atenciosa do que antes, olhos vidrados para cada palavra que saia de minha boca, pensei se já estava se aproximando do horário de ir embora. Estava nervoso, ansioso, desajeitado e acho que já não mais conseguia esconder isso. Ela me olhou desconfiada agora pouco, tentei disfarçar, mas acho que não deu pra evitar. Ela notou.

– Que horas são? – Eu perguntei

– Quase cinco.

– Está chegando…

– Sim, está.

Tomamos mais um pouco do vinho, Ficamos ali sentados, olhando em volta. O silêncio fora rompido por algumas tosses, baixinhas, lá no fundo, no final da rua e em seguida alguns latidos, mas logo o silêncio voltou.

– Não teme a morte?

– Oi?

– Eita! Como você é distraído. – Ela disse

Eu ri

– Me desculpa! Mas é que… passa muitas histórias pela minha cabeça

– Por que não as conta?

– Acho melhor não.

– Vamos, conte!

– Sobre a morte, eu não temo.

Encarei. Ela então voltou a olhar aos telhados das casas ao horizonte e lá longe, as montanhas por onde nasceria o sol.

Ela já estava incomodada. Isso se notava pela sua expressão e no quão impaciente ficava quando não a dava a resposta que queria.

– Me diga, por que quer tanto saber sobre o que eu fazia quando jovem?

Não conseguindo esconder o sorrisinho que surgia no canto de sua boca, respondeu:

– É que você é bastante quieto, misterioso, nunca o vi conversando com ninguém, passa horas e mais horas sentado na praça…

– Perdi uma amiga bastante querida por aqui.

Ela engoliu em seco aquilo. Ficou em silêncio. Sem reproduzir nenhum barulho. Desgostosa. Um vento frio se chocou com nossos rostos, mas não houve nenhum ranger de dentes.

– Lamento! Não era minha intenção…

– E fora por minha culpa.

– Eu poderia evitar – continuei -, poderia ter a segurado pelos braços, mas não…

Ela não sabia o que falar, mas estava bastante curiosa

– Eu estava bêbado, drogado sei lá.

– E os outros?

– Que outros? Nesse dia não havia esses outros, apenas eu e ela.

– Quem ela era?

– Uma grande amiga, uma grande amiga.

– Acalme-se!

Enxuguei a lágrima que escorria sozinha pelo meu rosto. Abaixei a cabeça e uma lembrança me tomou os pensamentos. “Não se preocupe, querido. Eu ficarei bem. Você fez tudo certinho.” Mas ela não sabia o que estava dizendo. Nem eu sabia o que estava fazendo. Ela fora antes, diagnosticada com um doença que a atacava a cabeça sem ao menos dar sinal. Apenas chegava e a atordoava. Em mim, foi mesmo pelo consumo de álcool e drogas ingeridas desde muito cedo.

– Mas e você, por que insistiu tanto?

– Insisti no que?

– Em virmos em algum lugar que desse para ver o sol nascendo.

– Já não lhe disse? Quero ver o sol nascendo. É isso.

– Isso eu sei, mas não sei tudo

– Como?

– Sei que não é somente para isso que estamos aqui

Ela bebeu mais um pouco do seu vinho. – Puta que pariu! – Esse foi o pior vinho que tomei, ela insistiu. Ajeitou o cabelo e esticou as pernas e as cruzou

– E então? – Exigindo algo dela.

– Sim, não estamos aqui somente pelo nascer do sol, pelo nascer do dia.

– Hum

– Queria passar um tempo com você, te conhecer melhor…

– Por favor, eu te conheço bem, você pode pular essa parte, não é algum de seus amiguinhos aqui.

– Mas é sério. Quero te conhecer

– E por que o nascer do sol?

– Sempre fiz assim.

– Fez o quê?

– Você sabe…

– Não, não sei…

– Você não me conhece bem?

– Acho que não tanto assim.

– O que há mais para se conhecer? – Olhava direto aos seus olhos claros e ela olhava os meus, castanhos e velho.

Não esperou que eu terminasse a pergunta e logo descruzou as pernas. Tratou logo de desatar os nôs do espartilho, desfazer os laços e de súbito, aquele belo par de seios saltou em minha frente. Ela deixou o espartilho ao lado e se aproximou.

Agarrei naquelas tetas e acariciei, e acariciei. Seus lábios se entrelaçando ao meu. Alguns suspiros e nós ali, ainda a noite, em cima de uma sepultura onde no lápide se encontrava os últimos dizeres de uma velha. Uma foto e logo abaixo lapidada no mármore o ano em que nasceu e ano de sua morte. Estava completando mais de anos hoje, que ali, aos vermes, aquele corpo se entregou.

Senti uma mão gelada dentro de minha calça e logo em seguida em meu sexo. Ela o acariciou e começou a me masturbar. “e a desgraçada mais parecia uma profissional” Pensei. Abaixou a cabeça, até lá próximo e sem nenhum escrúpulo, meteu a boca, chegando até próximo de meu saco. E o chupou, me masturbou e chupou. Até que enfim, o primeiro jato de porra o inundou a boca. Engoliu.

Ela se afastou e tratou de tirar suas calças, afastar a calcinha branca de renda e então ficou de pernas abertas. Meti a língua em sua vagina, e a lambuzei. Fiquei ali por um tempo com ela gemendo e gemendo, cada vez mais alto, cada vez com mais vigor. A acariciava os peitos e chupava o grelo, mordia, lambia, brincava. Até que ela também gozou.

O Sol lá distante, estava surgindo, ainda tímido por entre as montanhas. Os primeiros raios serpenteava pelos becos do cemitério. Neblina se dispersava na mais tenra tranquilidade ao longe. Os pássaros cantarolavam. E o coito ali, continuava. Meu órgão enrijecido estava envolvido por aqueles lábios grandes e molhados. Eu num movimento continuo, ela aos suspiros, aos gemidos, totalmente entregue, ora me beijava, ora se contorcia, pedindo a todo instante para fode-lá mais e mais e também me pedindo para não parar. O que alias, nem precisava pedir. Metia com todo tesão até que outro jato de porra a inundou. Agora fui acompanhado por ela, pelo orgasmo dela. Alguns espasmos e por fim, alguns beijos. Estávamos ofegante e ela sorrindo.

Nos recompomos, nos vestimos e voltamos a sentar naquele canto onde estávamos. O sol já não mais tinha o tom avermelhado de antes, do inicio, agora, um alaranjado chegando próximo a um amarelo estava. Me pediu para dar o laço no espartilho.

– Foi a minha melhor transa! – Ela deixou escapar.

– E também a minha.

– Já foi casado?

– Sim

– E o que aconteceu?

– Pronto – Soltando o cordão do espartilho –, o laço esta feito.

– O que aconteceu com sua esposa? Com seu casamento?

– Já lhe disse.

– Disse nada

– Disse sim

– Não estou me lembrando agora.

– Já lhe disse o que ocorreu com minha esposa

– Pelo que me lembro, me disse o que aconteceu com sua amiga

– Sim, minha grande amiga, além de ser minha esposa. A primeira e a única.

– Lamento! novamente. – Ela deixou soltar um suspiro de descontentamento.

Agora sem saber o que dizer, não conseguindo olhar em meu rosto, não sabendo por onde continuar, decidiu ficar ali quieta, se encolhendo do frio e do sentimento que enchia o seu peito.

– Mas então – a olhei -, e você?

– Oi? – Ela, distraída estava.

– O que quer além do nascer do sol?

– Além do nascer do sol, além da sua companhia, há o meu desejo.

– De transar em cima de uma sepultura, imagino.

– Por que esta dizendo isso?

– Já a vi fazendo isso aqui.

– Ahn! Como sabe? – Espantada.

– Trabalho aqui. Sou coveiro.

– Então… então você já me viu… aqui?

– Sim. Já ti vi por aqui.

– E muitas vezes – Enfatizei.

– E não somente isso. – Eu a olhei e ela me encarou.

Por aqueles tempos, havia na cidade, um boato que murmurava por entre os bares, botecos, igrejas, pelas portas das senhoras que se encontravam para fuxicar, que uma jovem bastante bonita, seduzia os homens, os rapazes e até mesmo algumas moças e os levavam a um beco, uma casa inacabada, pro cemitério, pra onde quer que fosse. Lá, depois de transarem, ela os matava, sem nenhum remorso. Fria. A cidade, a pequena cidade do interior, Onde os habitantes já não mais se sentiam tranquilos. Assustados, os jovens já não mais se sentiam a vontade a noite, nos bares, a se embriagar e a dançar com alguma desconhecida, que pelas boates aparecia.

– E por que, sabendo disso, ainda me trouxe? – Ela perguntou

– Ainda não lhe contei os detalhes de como minha mulher morreu, não é?

Fora a primeira, a única e como mais tarde ficaremos a saber, fora a última vez daquela jovem, na qual ela ficou realmente assustada. Apavorada. Tentou aos gritos pedir socorro. Besteira. Não havia ninguém para ajuda-lá. A casa mais próxima estava longe, bastante longe e como podemos imaginar, era a minha. Ninguém para ajudar, ninguém que poderia ouvir os seus gritos, ouvi-lá se bater. Já não mais estava certa, se fora uma boa ter me chamado. Ingênua. Ingênua moça com seus belos par de seios, seus lábios divinamente desenhados, um jeitinho que encantava a qualquer um, até mesmo o padre da cidade não conseguira fugir dela. Um rabo volumoso e uma boceta que agora, aos vermes, servirá à eles, se fartarão como bem me ocorreu mais cedo.

O Funeral

Hoje, despertei e ao despertar fiquei alguns segundos tentando lembrar do sonho que tive. Algo estava me dizendo que tinha sido agradável ou ao menos, que precisava me lembrar dele. Não sei ao certo. Não sei por qual motivo. Sei que fiquei ainda na cama, estirado, sem mover um músculo, apenas olhando para o teto branco lá no alto, na esperança de algo lembrar. Passaram-se alguns minutos e algumas imagens retornaram. Esses sonhos são estranhos. Não conhecem as leis da natureza e se divertem na sua aleatoriedade de imagens. E assim foi. Pelo menos assim foi o que me restou no consciente depois que despertei. Centenas de imagens se intercalando até que no fim, se tem um pequeno filme. Um curta-metragem com um diretor totalmente embriagado. Alterado. Assim são os sonhos – pelo menos assim são os meus.

Mas não me despertei por que havia acabado o sono. Devo dizer que o celular assim me despertou (celular, pois hoje em dia aqueles relógios, redondos, pesados, as vezes vermelhos outrora azuis, já não mais se encontram. E penso que alguns, nem queiram mais os encontrar, quem iria querer ser acordado com um barulho desgraçado de chato daqueles no seu ouvido sendo que se pode ter um celular que te despertará com uma música que lhe agrada? Não a toa, creio que os últimos anos de vida daqueles relógios, podem dizer muito de si. Qual dono nunca se viu acordando já aos socos com aquele despertador? Não sei como fora no inicio, mas o final não foi dos melhores para os relógios.)

Deixei rolando a música, ela sempre me anima, ainda mais quando consigo notar que lá fora, a chuva ainda golpeia incansavelmente o telhado. Ah como gosto da chuva pelo amanhecer e como gosto daquela canção, Whisky in the jar na versão do Metallica me acordando. Pego o celular quando já se aproxima do fim da música. Leio a mensagem e desejo um Bom dia. “Será que ela ouviu?” fiquei pensando e volto pra cama ao notar que ainda estava cedo. E ali fico. Um outro sonho retoma. Nem sei mais onde havia parado aquele outro e esse novo já se inicia.

Agora tenho a minha avó, conversando, quase sussurrando com alguma de minhas tias. As duas ali, sentadas e se encurvando para estarem quase próximas uma da outra. Minha avó estava chorando e depois de algum tempo de sussurros, começo a entender o que elas conversam. Nisso meu avô entra, mais no segundo seguinte ele troca de aparência com alguma outra pessoa e fica nisso até o final do sonho. Trocando de rosto a cada instante. Trocando de personagem. Minha avó agora já se esconde, não a vejo mais, nem minha tia. Tudo parece acontecer num piscar de olhos. No meu ombro agora tenho um caixão sem a tampa, o que me permite enxergar o defunto (pois assim todos imaginam que seja) lá dentro. Passa pela minha cabeça uma história de que meu avô fora, antes de conhecer minha avó, um homem de família respeitada e nobre na cidade onde morava – se não fora, pelo menos fez parte de alguma família assim, e que por alguma razão, aquele defunto fora alguma de suas muitas desavenças. Quem me disse isso? Não sei, talvez seja a conversa da minha avó ou talvez não. Não sei.

O cadáver ainda estava num tom avermelhado, se notara que carne já não haviam grudadas naqueles ossos. Nenhum vestígio de carne tinha naquilo. O rosto não cheguei a olhar, mas fiquei desconfiado. Naquela época eu estava faminto e magérrimo, o meu esqueleto saltava aos olhos de qualquer um que me visse. Sentia vergonha de andar na rua sem camiseta, já não mais ia para clubes, na pelada do entardecer, sentia um alívio quando era escolhido para o time que iria usar camiseta. Mas isso são detalhes, não importam muito agora. No instante que retomo ao que estava fazendo, meu avô – ou era a outra pessoa? – já havia lançado aquele defunto vala adentro. Mas devo dizer que desde que surgiu aquele caixão em meu ombro, meu avô e os demais que o ajudava, cantarolava uma canção, será que fazia parte do rito? Pois bem, parecia mesmo, ainda bem me lembro. O ritmo era típico de canções de rituais, daquelas que se ouvem por aí, então que me pus a acreditar que estava mesmo fazendo parte de algum ritual. Aquela alma irá descansar em paz agora, assim creio ser o desejo que se instalava naquele ambiente.

Meu avô foi o primeiro a jogar a primeira pá de serragem dentro da vala – não, não era terra, de nenhuma cor, de nenhum tipo, era mesmo serragem e com as cores vermelhas e marrons -, minha avó agora já não mais estava. Sumiu. Devo ter visto ainda minha tia ao lado da sepultura. E mais algumas pás vieram em seguida. Todos estavam ajudando, menos eu. Eu que já estava a uma certa distância dali, me distanciei ainda mais quando alguns gritos surgiram lá do fundo. Um frio na espinha brotou no mesmo instante. Fiquei paralisado e perplexo por ainda ver meu avô, os ajudantes e minha tia, jogando ainda mais serragem em cima do corpo, pareciam não ter escutado nada. Como podem, aquele defunto estava gritando tão alto, agoniado, desesperado, será que não estão escutando? Não é possível – pensei. Mas, o que ajudara a acrescentar ainda mais horror em toda aquela cena, era de que nas histórias que ouvi, aquele corpo estaria completando seus mais de dois mil anos de falência, um tanto mais ou um tanto menos, – sei que novo não era. Ah, meu deus, exclamei, como ainda por tanto tempo assim, ainda estar vivo? Incrédulo, fiquei. Mas todos aqueles gritos não pareceram suficiente para o meu avô, os ajudantes e minha tia, creio que eles, diante desse longo tempo em que se acreditou, que a morte o havia beijado e lhe entregue o que fora prometido, que aqueles gritos não queriam dizer nada. Pra mim estavam sim, querendo dizer alguma coisa. E isso não me deixava bem. Os gritos foram ficando abafados e mais abafados, na medida em que mais serragem era jogado por cima de seu corpo – vivo ou morto, agora já nem mais me importa.

Corri dali, e corri. Defronte a mim surgiu uma estreita passagem por entre dois enormes prédios. Suas paredes eram brancas e olhando para cima, pude perceber que elas não pareciam ter fim. Havia alcançado o céu, d´um lampejo isso me tomou os pensamentos. Aquela passagem me deu para dentro de uma loja e pude ver, pelas portas abertas, a rua que jazia deserta, ou quase isso. Devo ter escutado alguma sirene vindo lá de fora. Olhei pra trás e a cena se repetiu. Estava eu lá de novo, não tão próximo da vala, no mesmo lugar, na mesma distância que estava na primeira vez. Meu avô jogando novamente a primeira pá de serragem e em seguida mais outras e mais outras e o defunto gritou novamente.

Acho que esperei o frio na espinha, mas sei que ele não veio. A canção começara novamente e então me despertei. Será uma nova mensagem de bom dia, me perguntei, então que me viro, espremo minha mão direita em meu olho direito e em seguida, faço o mesmo com a mão esquerda no olho esquerdo. Arregalo-os e tento ver o que esta acontecendo com o celular. Era o alarme, com a mesma canção de quando recebo alguma mensagem, e de praxe espero pelo último acorde daquela guitarra distorcida. Ele veio e coloco o celular de volta em cima da mesinha que fica ao lado de minha cama. Com a cabeça no travesseiro e sabendo que teria de levantar, fico ali parado por alguns instante, estirado, sem mover um músculo, apenas olhando para o teto branco lá no alto, na esperança de algo lembrar daquele sonho. As imagens vão retornando, o filme novamente vai surgindo. Mas não tenho tanto tempo assim, para me lembrar de tudo, de cada detalhe. Apenas me lembro do mais importante, dos que ainda permanecem frescos em minha cabeça. Tomo um banho. Tomo o meu café e com as portas e janelas, devidamente trancadas, saio à rua para cumprir o que havia proposto para essa manhã de outubro.

Na sala de espera

Se lhe afronta, lhe provoca um alvoroço nas entranhas, lhe atiça a mais pavorosa ânsia, saiba que és isso o que mais desejo de ti. Não é para menos. Quero que sinta ódio de mim, repulsa, raiva, tudo que o faça perder a calma, perder as estribeiras, que se sinta como se tivesse perdido o chão, quero que desafie a si mesmo na sua capacidade. Até onde você pode ir, seu lixo? Escória! Resto de merda digerida no mais pútrido intestino! Mostre-me o que é capaz, seu estorvo! Está se sentindo melhor? Não é isso que deseja? Vamos, reaja, covarde! Ou vai me dizer que não é capaz?! Sim, isso bem sei. Você nunca foi capaz de reagir, nunca conseguiu esconder isso. Seu imundo! Vamos o que lhe amedronta? Por que ainda permanece calado? Isso, isso mesmo que quero. Olhe para o chão, abaixe a sua cabeça e se entrega. Eu ainda não ouvi o seu choro. Você não é capaz. Nunca foi, por sinal. Você ainda chia? Vamos, desgraçado, você ainda chia? Quero ouvi-lo, mesmo sabendo que você não passa de um rato. Você mais que eu, sabe que os vermes anseiam pela sua completa decadência. Devo dizer que eles não estão tão sossegados quanto estiveram. Mais do que ninguém, eles não veem a hora de te devorar. Como? Você chiou algo? Eles já o estão, foi isso o que disse? Pois se não for, é o que pelo menos acredito estar acontecendo. Vamos seu imundo, levante da sua completa inutilidade, do vazio que mergulha e do vazio que és. Vamos seu imundo, seu covarde, aquelas crianças zombam da sua cara e elas estão com toda razão, você sabe disso e isso, você alimenta. Se afunda ainda mais a cada respiração. Não se esconda atrás dessa máscara, nem se iluda achando que irá conseguir se camuflar se inundando de álcool, entupindo o rabo de drogas e mais drogas, não pense que está conseguindo se esconder, tentando passar uma imagem que não é. Por mais bonita que ela seja, ela não é você. E você me parece que ela nunca será. Você é um inseto que fareja a carcaça de recém falecido. Um abutre no cadáver amanhecido. O fedor exalado naquele amontoado de carne podre, parece-lhe entorpecer. Vamos criatura, mostre-me o que ainda consegue realizar. És bom no comércio? És bom no esporte? És bom nas palavras? És bom ladrão? És bom em que, criatura? Vexame da natureza! O que ainda chia, merda? Não consegue chiar mais alto, ou nem isso mais se presta? O que pensas em fazer? Por que levantaste, moribundo? O que irá fazer? Você não é mais capaz disso. Já tentaste muitas outras vezes e nem ao menos conseguiste bater no tambor afim dele girar descontroladamente, como fazem aqueles senhores em filmes americanos do faroeste. Achaste mesmo que é capaz de fazer isso hoje? Vamos seu ordinário, siga em frente, encha esse tambor e encoste o cano em sua têmpora. Nâo é capaz disso? Erga esse maldito revolver! Nós dois sabemos que você não irá conseguir, por que ainda insiste em segurar esse revolver? Abaixe-o e volte para sua insignificância, abrace o nada que és e volte ao seu quartinho alugado na rua Dois. Nâo seja tolo, meu caro! Não perdeste por completo a razão, sabemos que nem ao menos, isso vos pertenceu, não é mesmo? Vamos idiota, abaixe esse maldito revolver seu escroto, seu lixo, seu rato imundo! Não seja tão idiota a ponto de fazer isso. Por mais burro que foste e me parece que ainda é, sabemos que isso você não consegue. Vamos idiota, desencoste esse cano gelado de nossa têmpora… Boom!

Essa fora as últimas palavras que aquela voz em sua cabeça, proferiu. O assombrava desde a infância e permanecia até naquele início de outubro. Uma manhã nublada, mas nada diferente de outras que vieram, nada também que interferisse na vida das outras pessoas ao seu redor, não naquele instante. O que havia interferido, ocorreu naquele homem que noutras noites, passara em branco, vagando em completo silêncio e escuridão em seu próprio cômodo, a fim de se descobrir ou as vezes, de procurar consolar o que havia se tornado.

O dia se estendeu, foi-se indo até chegar o anoitecer. E aquele anoitecer não fora como os outros. Nem a manhã seguinte fora como as outras. Hoje, ele prospera em suas metas e nada mais do que um dia de conquistas, para conseguir expressar com tranquilidade o o que naquela manhã de outubro teve de enfrentar. Mas não devemos esquecer que fora naquela manhã, a sua maior conquista, mesmo que a desconfiança nele, perambulava. Mas para aquele que o viu, dias mais tarde, sabia muito bem de sua conquista e do tão grande, assim era.

Com a caneta e o pedaço de papel ainda em mãos, o choro do recém-nascido o fez erguer a cabeça no mesmo instante. De um salto se pôs de pé e sem saber o que dizer, ergueu os braços a fim de conseguir segurar aquele pacotinho enrolado por fraldas e mais fraldas, que tinha acabado de sair do quarto, onde havia sido parido. Ele apenas agradeceu com um “Muito obrigado!” com algumas lágrimas já escorrendo pelo rosto, as moças que o trouxeram até ele e o resto, só quem estava lá para saber o que ocorreu. Mas não serei tão duro com aqueles que lá, não estavam, naquele dia, naquela maternidade, talvez consigam vocês, imaginar a emoção que é de segurar pela primeira vez, a criança que o chamara de pai, alguns anos mais tarde e fora isso, o que naquela sala, ocorreu, seguidas por lágrimas e mais alguns “Muito Obrigado!”