O assovio

Dou uns três passos e afundo-me no sofá. A TV permanece intacta. Nem sei mais se isso funciona. Ligo o rádio, coloco algo para escutar. Fico apreensivo com as primeiras notas da nona sinfonia e no instante seguinte acendo o cigarro. Nada que fugisse do habitual. As paredes continuam esquálidas, o ar, pesado, a janela, esta puta de pernas abertas, começa a me incomodar. Fico inquieto e lanço ao alto, fumaça. Mas não me levanto. Deixo, cá, esta luz sobre minha face.

Ouço vozes vindo do corredor, e só. Não tarda pro silêncio se instalar novamente. Permaneço ali, os movimentos apenas vem do manejo com o cigarro. Hei-de-me enterrar aqui, digo mentalmente. Hei-de-me enterrar aqui, repito e não me assusto ao ouvir a rouquidão de minha voz.

O tempo não parece se incomodar, passa como se nada lhe ocorresse. Indiferente. Frio. Tentando sempre que possível, esquivar do passado, nos inquietando com o presente e nos vacilando com o futuro. As horas, os minutos, segundos… seis e quinze, seis e vinte e dois, seis e vinte e sete… por fim, protesto: Quieto, moribundo!

Voltei-me de imediato a sinfonia. Esta quase no fim. A ouço. As últimas notas… os últimos compassos. Mas eles terão de ir um dia, tento me convencer. E eles se vão… e eu também. O ranger de portas, os ratos a roer, os pombos em meu telhado, o cão a ladrar, o gato a rosnar… ah! isso não me agrada. Me é pior do que um chute bem-dado no saco. Vagueio por aí.

O anoitecer se aproxima. O sinto. Ele está na esquina, ainda tímido, mas está. Na forma humana que perambula noutro passeio. Nos carros a ziguezaguear rumo ao centro. Está na voz cansada do velho. Na ansiedade do rapaz. O entardecer está quase aí. O sinto. O vejo maquiado de enfado.

Cá, me perco no café, na xícara semivazia. Tento ler meu futuro. Os devaneios sempre me atormentam em tempos como esse. Há ao meu lado um casal. Tento não prestar atenção na conversa, mas é impossível. Eles professam suas tolices numa altura que chega aos meus ouvidos – Esses que agora os declaro, meus inimigos. Sinto algo análogo à náusea sempre que ouço um Querida, naquele tom, meloso, cheio de segundas intenções. A moça o acompanha. Estão cheios de dengos e caricias. Levanto a cabeça e me deparo com um velha, toda sem jeito, corada, se mostrando desesperada com a dentadura em mãos. Antes de fazer algum julgamento daquela cena, sou assaltado, quase que de imediato, por uma risada. A risada de uma pirralho, logo percebo. A mãe o reprime. Saio dali, com a segunda xícara ainda intacta.

Caminho à passos largos e quando dou por mim, cá me vejo. Reconheço as paredes, a janela quebrada, o ranger da porta do banheiro, o mal cheiro. Reconheço o ar pesado, o bolor. Reconheço o vazio desdenhoso. Reconheço-me em meu cômodo. Enfim, reconheço-me… creio eu. Das ruas lá fora, digo-me, quase sussurrando, enterrado no sofá: Todas elas dão ao mesmo lugar; todas elas dão ao ócio.

Apoio a cabeça. Acendo um outro cigarro e tento por fim, iniciar a nona sinfonia, assoviando…

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