Driblando a Angústia

É madrugada de uma quarta feira. O verão nos castiga impiedosamente. Cá, tenho o ventilador 24 horas ligado. Sei apenas que chega a amenizar o calor por hora. Estou sem sono. Deito na cama e começo a pensar em algo para escrever. Sinto uma enorme vontade de escrever, apenas rabiscar um texto, um conto ou um poema, quem sabe? Mas, quero escrever. Antes de ir me deitar pela primeira vez, já havia tentado escrever algo, mas nada havia saído. Agora insisto. Lá vou eu de novo! Levanto da cama e me sento defronte ao computador. Abro um editor de texto e tento começar de novo. Mas nada sai. Isso é frustrante. Volto para cama. Pego um livro e começo a lê-lo. Fico impaciente com a leitura logo em seguida e com isso, arrisco-me novamente. Volto para o computador, e de novo, nada. Saio dali enfurecido. Nenhuma linha sequer que prestasse. A cama me tem novamente. Agora, com as luzes apagadas. Fecho os olhos e tento deixar algum assunto fluir. Quem sabe assim?

Procuro-o no breve momento em que parei de frente à TV no jantar. O que havia ocorrido, perguntei-me, caso Pinheirinho? Talvez isso poderia sair algo. Mas, não, não agora. Os prédios que desabaram? Quem sabe? Mas numa outra hora. Policiais em greve? Não. Os assuntos estavam vindo e no mesmo instante, indo. Tentei lembrar algo de quando era mais novo. Mas nada, o que surgia já logo dispensava. Enquanto isso, a vontade de escrever, aumentava. Já experimentava nessa altura, uma certa irritação comigo mesmo. Escrever o que então, diacho? Joguei-me contra a parede. Voltei então minha atenção ao meu quarto. A janela escancarada em razão do calor, deixava-me apenas uma fresta da luz vinda do poste. Era o único ponto de luz que havia naquele momento e ela incita sobre a mesa do computador que o iluminava. Lembrei-me, logo, de uma situação que li em um livro. O livro se encontra aqui do meu lado, separado junto a mais alguns que deixei para ler mais tarde. Eu não via a mesinha na mesma cor que via mais cedo, durante o dia, nem ela agora, em algumas partes, se encontrava na mesma cor que em outras partes onde há mais luz. Saltei da cama e sentei na cadeira em frente ao computador. Sobre a mesa, além do computador, há uma impressora, dois cd´s de músicas, uma câmera fotográfica e uma pilha com 5 livros. Seja lá quem aqui viesse e se atentasse a esses detalhes que dei, não iria duvidar que realmente havia o que disse haver ali, iria duvidar da cor que eu iria descrever, isto por que não era a mesma cor que estaria vendo. Mas não irei aprofundar nesse assunto, não é meu intuito discutir sobre aparência e realidade aqui. Se querem saber mais sobre isso, um bom livro sobre o tema irão lhes auxiliar no estudo. Eu, não. E cá me vejo, outra vez, um tanto quanto angustiado pela falta de um assunto que me prende a atenção e me leve a arriscar escrever mais de que três linhas.

Afundei na cadeira. Olhei ao teto e lá estava ele, vazio, esbranquiçado como a minha mente. Desejei uma dose de whisky, quem sabe não ajudaria, pensei comigo. Desejei até um baseado, mas nem um e nem outro tive. Estava desapontado comigo. Talvez me falte concentração. Ideias estavam vagando pela minha cabeça, mas eu não as conseguia botar em ordem. Atirava para aquela que tinha o sorriso mais largo e como de praxe, a do sorriso largo era abandonada pela de sorriso amistoso. Me perdia. Mas em minha teimosia, em meio ao afã noturno, inicio um texto e duas ou três linhas depois, li. E reli. E reli de novo. E lá estava eu, experimentando todas as sensações possíveis que o enfado poderia me trazer. Fechei a página e voltei para cama. Nessa vez, deixei rolando algum rock lento, numa altura agradável. Cantarolei um trecho da canção e me estirei na cama. O som ia rolando, alguns assuntos ia surgindo. Tecia um paragrafo com eles, mas nada de mais, nada que me fizesse levantar e ir até lá, ao já visto como inferno. Então adormeci. Quem sabe assim, ao despertar, iria conseguir escrever algo?

Meu sonho havia sido, eu com alguns primos, caminhando ou desbravando uma praia que aparentava ser deserta. A água era de um verde que nunca havia visto antes. A areia mais parecia neve. Haviam alguns coqueiros enormes ao nosso lado. Caminhávamos lentamente, comentando sobre algum assunto qualquer. Ríamos muito enquanto isso. Num certo momento, chegamos ao fim da praia e demos de cara com uma cabana. Curiosos como somos, adentramos. Não parecia ser habitada por fora. E agora nem por dentro. Pedaços do teto estavam espalhados no chão, haviam folhas das árvores próxima, estavam por todo canto. Dois passos dei e avistei um objeto, agachei e o peguei. Que objeto era, agora já não me lembro, mas quando levantei fui surpreendido. Havia num canto, um cobertor aos trapos e num outro, trajes íntimos que fez-me pensar que aquela cabana era de muita utilidade para quem ali fosse. Deixei de lado o objeto e saímos dali. Caminhamos mais um pouco e então despertei. O computador ainda estava ligado. A seleção de música que havia programado, já havia acabado. Putz! Nem cheguei a ouvir aquela lá, pensei comigo, adormeci rápido demais, ela seria a terceira a tocar. Fui a cozinha, tomei um copo d`água. Escovei os dentes e voltei pro quarto. Li algumas notícias em algum site e por fim, abri o editor de texto. Comecei então a escrever. E não parei até chegar o fim. O que tinha para escrever? Era simples: tentaria descrever a angústia que é, querer muito escrever algo e não conseguir uma linha descente sequer. Descreveria minha luta, eu indo me deitar, pegar um livro, ficar impaciente com a leitura, voltar p`ra frente do computador, tentar novamente escrever algo e nada sair, repetir isso algumas outras vezes e nada, indo então por fim dormir ouvindo um rock. Sonhar com uma praia e uma cabana e então despertar durante a noite, ver que dormi pouco, menos de 4 horas, ir tomar um copo d`água e voltar pro quarto, ler algumas notícias, abrir um editor de texto e começar a escrever. Começar a escreve-lo e não saber como iria encerrar com aquilo. Mas isso não importava. O importante era escrever, o fim nem é tão desejável. Talvez dou eu vez a uma velha mania que possuo, ou seja, dar fim nas estórias ainda pela metade. Ainda não sei, talvez eu faça isso novamente, mas enquanto isso, cá estou eu…. É manhã de uma quinta feira.

O Museu

Dos poucos que ali se acomodavam, nos corredores sujos do agora, antigo Museu, onde as portas, arrombadas estão, vidros estilhaçados e seus cacos se estendendo à todos os cantos por onde a escuridão, com seu toque acrescenta, um ar ainda mais sombrio, um senhor, aos trapos, barba que mais parecia nunca ter sido aparada, me olhava desconfiado. Diante a entrada, estou. Olhando ao alto, ou ao que sobrou ao alto. O teto minunciosamente desenhado como era, onde outrora já fora capaz com cada detalhe que possuía, me surpreender, hoje, com os tantos anos que carrego nas costas, não o vejo assim, o teto já não mais me surpreende. Não como fora antes. Ninguém mais o vê assim, alguns nem ao menos chegaram a conhece-lo.

Lembro-me, com um aperto no peito, as exposições em que papai me trazia.

– “Veja, papai!

– O quê? Onde?

– Ali, aquela ali “

Papai olhava para onde eu estava apontando e ao identificar, elucidava-me com uma breve biografia do artista. E eu o admirava ainda mais, os dois. As obras eram fantásticas, mas ouvir papai, com todo seu entusiasmo, tentando ser o mais breve possível e também o mais rico em detalhes, era algo ainda mais fantástico e que poucos poderiam ter. Lembro-me do dia em que ele serviu de guia para um punhado de estudantes crianças – curiosas crianças bem dizendo -, em uma exposição onde as obras remetiam a personagens marcantes das histórias em quadrinhos. Via papai irradiante, em nenhum momento quis parar, tirava qualquer dúvida das crianças e juntos desbravavam cada obra com um novo olhar. Ficou triste quando soube que o passeio das crianças estava chegando ao fim mas logo, feliz voltou a ficar, quando de imediato lhes disseram que no outro dia, um outro punhado de estudantes viriam para a exposição. Estava lá, no outro dia, cedinho apenas os esperando. Ele não escolhia quem ajudar, ajudava, e em algumas ocasiões, podia o ver com lágrimas, com sorrisos e sem perder o fôlego um só instante, quando o era chamado para fazer o que mais gostava: entreter as crianças e as fazerem descobrir que todas elas poderiam vencer, virar um grande artista, um grande jogador de futebol, uma grande dançarina, uma grande modelo.

“Está bem, senhor?” Eu parado, olhando para onde, naquela época passada, apontava para papai uma obra, pois muito me chamou a atenção nela, uns detalhes mais destacados ao centro que ia para o superior direito da mesma. Estava além daquela parede suja, pichada, destruída que hoje ali se vê. Arrastei meus pés um passo a frente, lentamente, a bengala golpeou o piso. Um eco. “Tudo bem, senhor?” A voz novamente surgiu diante a poeira e entulho. Me virei, na porta, aquele senhor, que aos trapos estava, barba que mais parecia nunca ter sido aparada, envolvido por um cobertor todo furado, me olhava. A desconfiança ainda não havia sumido daquele olhar. Apenas balancei a cabeça concordando. Mas não tinha tanta certeza assim.

– O que aconteceu aqui? – Perguntei

– O senhor não vê?

“Sim, meu caro, vejo mas não consigo acreditar no que vejo.” Havia pensado comigo. Dei alguns outros passos, incrédulo, sempre retomando algumas outras histórias dos tempos passados. Contei algumas para aquele senhor, ele apenas as ouviu, ora concordava de imediato ora queria saber alguns outros detalhes a mais. Depois de algum tempo, lá dentro, com aquele senhor de companhia, ao lado de fora voltei.

O fedor de urina não me incomodou. Alguns pombos a ciscar estavam. Um dos senhores estava sentado, o máximo encolhido que pôde, encostando o queixo no próprio joelho, olhava vagarosamente para a rua vazia a sua frente. Vez ou outra um carro ou um ônibus ou uma bicicleta, ali passava mas nada que o tirava daquela situação. “O que pensava aquele homem?”, “Qual era sua história?”, “O que o trouxe aqui?” Queria saber mais de si, mas resolvi não o incomodar. Mas hoje, não sei se o correto, fiz.

Desci a escadaria, andei em direção a um banco da praça logo ao lado. Tive que me afastar um pouco dali, daquele lugar, daquela sujeira, daquele fedor para então, um pouco de ar tomar. Fiquei desapontado, sim e bastante! O prédio estava caindo aos pedaços, se desintegrando, uma parte do telhado já não mais existia, apenas alguns pedaços dele o encontrei lá dentro, junto as fezes dos cachorros que ao lado, num escurinho, dormiam. Algumas pessoas caminhavam ali por perto, aos arredores, umas com um sorriso no rosto, outros carregando preocupações, outros ao telefone, “Será que estão se importando com o museu?” Além de não saber o que pensava aquelas pessoas, desconfiei que nem atenção dava ao prédio que morria lentamente ao seu lado, ao nosso lado.

E com aquelas pessoas? Com aqueles cães? Quem se importavam? O homem que da natureza tira, se apossa para então mais tarde vender, condena o outro, o sentencia acusando de roubo, o homem que de fome passa por não ter andado nos eixos. Um eixo que fora erguido com sangue, orgulho e ignorância e que agora assiste um senhor definhando aos pés da cidade, do senhorio, de todos, que ainda o vê como um estorvo, um rabisco mau feito no quadro, apenas por não se adequar a um plano mesquinho do outro.

Ah quanta injustiça! Esses que mais parece nunca ter olhado ao espelho e visto quem realmente são, mata e não mais se preocupa com isso. Pouco lhes importa.

Levantei-me e voltei ao prédio. O senhor que sentado estava, encolhido, queixo sobre os joelhos, ainda assim permanecia, os outros dormiam e o que me fez companhia tentava acender o cigarro. Riscava o fósforo e o aproximava do toco de cigarro preso a boca

– Senhor! – o chamei.

Ele me olhou de lado.

– Lá dentro, o senhor havia me dito um nome.

Ele continuou olhando.

– Que nome era?

Deu um trago, soltou a fumaça, lançou o cigarro a lixeira ao lado e disse:

– Era seu pai, não é?

Hoje, sobre uma cama, isso escrevo. Lá fora cai uma chuva, capaz apenas de sentar a poeira que da estrada, vem. É dezesseis de agosto, o dia acabou de nascer, a sabiá no abacateiro em frente, canta, majestosamente! O cheirinho do café feito no fogão à lenha enche esse peito velho onde muitas e muitas lembranças o inunda de alegrias e tristezas. Ajeito-me afim de ficar sentado ainda na cama, costas sobre a cabeceira e em frente, na parede, o retrato de meu pai emoldurado. Feliz aniversário, eu o desejo, pela porta entra sua neta, ainda de pijama, sorrindo, trazendo na bandeja, o café mas não antes de dar bom dia e um beijo em minha testa.

Modus Operandi*

– Ah! e qual sua técnica para escrever?
Fui indagado. Aquilo me lançou ao teto vazio. Vazio, não! pois havia ali uma puta mancha negra – Aquela maldita telha quebrada – pensei comigo. Mas logo voltei a refletir. Não dei mais atenção àquilo. “Qual seria a minha técnica?” Deixei aquilo vagueando o que tinha de espaço para isso. Mas minha cabeça não é grande. O espaço é limitado. A resposta veio até que logo.
– Minha técnica é simples: É mordiscar o beiço grande. Lamber toda aquela pomposa genitália enquanto roço meus três dedos no reto e a ouço, vejo gemer, esboçando a insânia
Enquanto eu não a ver assim, talvez o que terei escrito sirva para algum outro alguém além de mim.

 

 

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Modus operandi é uma expressão em latim que significa “modo de operação”. Utilizada para designar uma maneira de agir, operar ou executar uma atividade seguindo sempre os mesmos procedimentos.

Fonte: Wikipédia

O último

Ouvia, daqueles olhos verdes, um partir que fez-me perder em seus lábios trêmulos. Cabelo louro aos ombros. Buscava-me o olhar. Gesticulava, pra cima e pra baixo, pr`um lado e pro outro, esses seus braços finos. O esquerdo decorado por um rosa entre espinhos. O preto e o branco contrastava na pele clarinha, clarinha. O rubor de suas veias, saltavam.

“Vou indo” e eu também, me disse, mudo, ao íntimo. Vou indo ao ventre, boneca. Que me pari, lhe clamo. Afundo, ainda mais, n`onde me sento. Ei, ouço dela. Seu batom é clarinho. Seus lábios são simétricos. Os olhos, muito me diz. A face macilenta me deixa louco, louquinho, faz sangue ferver, garota. De costas, vai. Sim, ela é linda, meu amor. E seu andar também. Que coxas são essas? Jesus! Não faça isso comigo. Aquele bater de porta, fora o último, desde então, que quis assistir em vida.

A noite

Franziu a testa, enquanto à meio copo, estava a cerveja. Ficou um instante fitando o que próximo a porta, em pé, tentando se manter equilibrado e sóbrio, estava. Mas em vão; a garota entrara seminua, cambaleante. Não houve alguém que não a olhasse. De calcinha num bege clarinho, com bolinhas coloridas, os lábios delicadamente desenhados… ah, que delícia! Imagino ter dito o velho a si mesmo naquela ocasião. Um senhor de aparência estranha que se encontrava próximo ao balcão.

Cheguei a reconhece-lo. Aquela moça não. Era uma estranha. O velho tratou de conhecer novas partes do corpo seminu daquela garota, enquanto os outros, num coro malicioso, entoaram um: “Seja muito bem vinda!” e algumas risadinhas surgiram. A moça pareceu se sentir em casa, riu, e no instante, vomitou.

Mais tarde soubemos de seu nome, uma parte de sua vida e do por quê se encontrava com aqueles trajes. Odiava as roupas, ela insistia. Não era tão jovem como alguns pensavam. Nem era uma puta. No boteco estavam uma meia dúzia de gatos-pingados. Da meia dúzia se soma mais dois, eu e o dono. Duas mulheres se embriagando enquanto pelas suas coxas, roçavam os calos, as mãos ásperas dos senhores que pela vida, assim os moldaram. Riam feito crianças, riam das mais diversas idiotices contadas. O que era certo de não haver ali, naquele círculo, era um luta de ego. Uma luta que muito se vê por aí.

Três senhores metia os dedos na boceta da morena, a fogosa senhora Clair – era assim que ela atendia -, um de cada vez. O dono daquele boteco não esperava os copos se esvaziarem, nem o próximo esperava o dedo do anterior sair. Clair gostava. Marrie – a segunda -, depois de prosear com o quarto homem, se pôs ao joguinho dos amantes.

Quem ali nunca esteve, ou que apenas, por algum motivo duvidoso, desconhecia da fama daquele lugar, estranhava. Mas o estranhamento acontecia logo de cara, pois não passava disso, no próximo piscar de olhos, as damas faziam, isso a qualquer um que ali adentrava, se sentir bem, em casa.

Aquele lugar ganhou notoriedade nos arredores, pelo ar voluptuoso que ali se respirava.

E naquela noite, ganhou um fedor de vômito que chegou as bordas do insuportável por causa daquela maldita garota.

A festinha foi até tarde da noite.

Voltei para casa. Era quase seis horas da manhã. Caminhei chutando pedras em ruas desertas. Tragava o vento gélido que vinha do lá longe, do distante, além das poucas árvores no horizonte cinzento. Era eu, com trajes velhos, bota furada, barba nunca aparada, um digno sorrateiro à mercê da vaguidão, dos pensamentos e dos passos.

Quando cheguei em casa, pus-me a refletir. Em mãos, uma xícara com chá bem quente.

Defronte a lareira, os pés descalços fiquei.

A garota lá permaneceu, noite adentro, junto aos demais, a brincar naquele joguinho. O senhor a fitava cada vez com mais profundidade. Ora ao seu corpo seminu ora ao copo de cerveja. Quando me levantei para não mais ali estar, ele ainda lá permaneceu, como havia permanecido durante o tempo que no bar esteve, quieto. Seu nome era Luís, conhecido pelos demais, como Luís. Um bêbado qualquer, uns diziam.

Deixei-me serpentear pelos mais diversos pensamentos, dos eróticos aos mais vadios, sem me amedrontar de nada. Questionava-me. Horas mais tarde, fui sendo tomado pelo sono. Um sono que veio quando não mais havia o que pensar, penetrar… era enfim, quase três horas da tarde, e então que adormeci. Instigado, alias.

Morava eu numa casa simples. Janelas não as tinha. Havia apenas uma entrada. O teto, era feito de uma folha de latão. Colunas eram de cadeiras; quatro cadeiras, uma em cada canto suportando o teto. Em tempos quentes, era perfeita, mas não posso dizer o mesmo dos dias de chuva. Gotejava, e os pingos, no teto, no latão, me atazanava noite adentro. Impossível de dormir. Cheguei a me perder nas contas dos quantos pingos foram até o amanhecer chegar, até o fim da chuva numa noite de devaneios.

Localizava-se abaixo de um viaduto, bastante conhecido era. Carros eram constantes, noite e dia, segundas, terças, quartas… domingos e feriados. A lareira era num canto improvisado, um fresta entre a ponte e uma mureta de segurança. Paredes já estavam pretas. O chá, fora a sobra que encontrei sobre a mesa d`um café que dava à calçada. Apenas o aqueci.

Afinal, onde estaria a felicidade, perguntei-me antes de me render ao sono.