A névoa que acinzentou

Ao fundo, os prédios enevoados. Defronte, o verde das enfileiradas árvores. O céu, em seu belo azul de finzinho de tarde, quase em seu crepúsculo, brilhava lá em cima. Era-me estranho, uma surpresa, mas, aquilo encantava-me. Quis uma câmera, mas a fotografia apenas se construiu em minha cabeça. Até mesmo o ziguezaguear dos carros, o emaranhado de seres, acrescentava algo. E algo de bom, até. O contraste à selva, àquela que se ergue em minhas costas, era enorme. Disse-me: ainda se respira o que alguns chamam de vida, cá.

– Naqueles prédios, seria qual bairro? – Apontei.

– O centro. Pegando essa rua, vai dar na praça…

– Hum. E lá vem a chuva. Veja. – Acrescentei, fingindo algo.

– É garoa, oras. Ou não sabe que São Paulo é a terra da garoa?!

– Quem dera se fosse mesmo.

– É – Lamentei.

A névoa foi se acinzentando. Por outras brechas, avistei: Ela se acinzentava por ali, e ali, ali do outro lado e acolá. Asfixiava-me, mas parecia não ter mais jeito. O verde enfim acendeu. Era hora de ir. Talvez não mais o veja, nem o encontre por aí. O carro virou à esquerda e se embrenhou prédios adentro.

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