A Confissão

Devo confessar, pois assim, possa ser melhor a nós dois. Devo confessar pois há algo que me constrange o peito, deixa-me ofegante. Mas, favor; não tape os ouvidos agora. Devo confessar, e confessando-lhe, tirarei de mim esse fardo. Foge de minhas intenções ferir-lhe – ainda mais. Escute-me. Não descordarei do que seja lá o que vier a fazer. A entendo. Tão bem que não mais tentarei encobrir de ti, isso. A dor realmente é a que nos cria, contou-me outra manhã gélida dessas. E por estar criado nela, tentemos apazigua-la o quão pudermos, completou. Pois bem…

Acalme, acalme… amor… mesmo sendo difícil. Acalme. Fiquei ensaiando noite inteira. Sim! por isso estive estranho. Calado e taciturno. Ansiei estar longe, tão distante… mas, cá, permaneci. Embaixo do mesmo teto que você. Mas tive de sair. O quarto abafava-me, a negritude nas luzes apagadas lacerava-me, o ar que inflava meus pulmões, sufocava-me, as palavras caíam-me indigesta – a sala refugiou-me.

Por isso a solidão. A solidão que me deixasse absorto nos dias passados. Havia lhe dito; Ah! Querida! Volte para o quarto, cubra-se e adormeça. A manhã nascera. Não importe comigo hoje. Tente isso. E você se foi, enquanto fiquei implorando a mim mesmo: Faça sumir de ti essa ruga profunda. Onde se encontra aquela tez macilenta porém vívida de outrora? Entender nada era impossível, sempre entendia algo. Sim, não esta errada deveras. Há algo que me constrange o peito, deixa-me ofegante. Mas…

Ah! Que desgraça que o destino reservou-me. Privou-me de ser-lhe franco. Privou-me de admirar sua alegria, seu sorriso fácil, e dócil. De me reconfortar com afagos e mais afagos inda na manhã primaveril. Sim, querida! Até então meu sorriso era falso. Sente-se! O que agora conto-lhe é mais do que uma confissão. Meu espírito derrama-se ao leito. Tenho o sepulcro, ao meus pés, com seis palmos de privação, de isolamento, do nada, do fim.

Desde que me ocorreu, a culpa lacerou-me a carne dia após dia, hora após hora, minuto após… O sorriso não reluzia com mesmo. Agora apenas esse amarelado concebo. Cada manhã é o nascer da dor. A dor que aflige-me, pior que outra dor qualquer. Seus olhos, inocentes, ingênuos, queria mais que tudo que descobrisse por si só e me perdoasse. Mas não. Eles continuavam inocentes. E isso ardia como a chama arde em arbusto seco em campo aberto. A amei. A amo. Mas que tudo, você sabe. Ocorreu por um deslize. Por um momento de fragilidade. Mas não por isso que temo; esconder de ti, mentir a ti foi meu pior equívoco. Sempre de ti cobrei, e agora eu, a traí.

Confiar… traição… por que esconder?… acreditar… são as palavras que vagam, latejam aqui dentro, são febris. Não a olhava nos olhos. Pedia, insistia para olha-lá, mas… Fitei a imensidão que encarcerava-me forçosamente num canto fétido. Devo confessar, a ouvi dela, resguardando algo naquela inevitável confissão, eu não mais… e o silêncio veio, pois todo ruído, confissão, choramingo, emudeceram. Apenas fez ressoar, por esse cubículo inóspito, o bater da porta e o salto alto golpeando violentamente escada à baixo.