A três passos

– E a três passos, adiante, por fim, quem serei?

Indaguei-me, defronte a cama, lugar onde pouco me ausento – não caio por enfermo, adianto. Faço por… Arre! entenda que por preguiça. Não o enfadarei com o que possa vir. O sono se esvaeceu cedo. A chuva cai fina, e constante. Eu, com pés descalços, peito nu, fitando a janela entreaberta, fomento meus devaneios… E nesses dou asas.

“Quem serei?” Repito, agora deixando-o escapar num som abafado, quase surdo.

Em tempos assim, costuma mesmo esfriar, advirto-me deixando escapar um filete de humor que possuo.

Cubro-me com o cobertor e faça-o envolver-me deixando apenas a cabeça e os pés a mercê do frio que insiste em me atazanar. Tempos outros, o frio gracejava-me. Desejei até me mudar para o sul do país. Diferente de hoje em dia. Pra se ver como são as coisas!

Havia despertado ante do nascer do sol. Isto é, ainda se tinha o bruxulear das luzes pálidas dos postes pelas vielas, ruas e nas fachadas de algumas casas. É também manhã de meu segundo dia naquele navio sem onde aportar, onde o seu balançar fez despertar em mim, uma ânsia, e logo, veio o vômito. Também exauriu a doença que trago da infância; a leitura. Dou já quase por louco, invisto nos tapas em meu próprio rosto a cada tentativa fracassada de conclusão em premissas já falaciosas. Dei-me por sofista hora dessas, e, diacho! A quem isso possa ser lá alguma coisa? Fico ainda mais inquieto. Não dizendo coisa com coisa, alertou-me mamãe, preocupada. Deixando-me também.

Peço apenas que deixe o pedaço de pão, com o copo de café com leite, ao lado. E ela sai. Mas não antes de querer saber algo. Não o disse. Creio não poder me ajudar. Um tanto dessa crença se justifica, o outro restante é por capricho meu, por vaidade.

Deixo a luz do quarto apagada, na tentativa de abrasar aquela danação. Procuro por algo, talvez para distrair, ou para por um fim nisso, para, quem sabe, despedir-me. E encontro Shostakovich. O conheci não muito tempo atrás – e por que não antes, por que demorei tanto, onde estive nesse tempo todo e outras tantas perguntas vieram logo em seus primeiros acordes. Algo de bom tomou-me o espirito, descreve-lo aqui seria o mesmo que diminuí-los, e desculpe-me, não o farei. Nem há como faze-lo.

E isso tudo durou pouco tempo. A analogia ao sonho pode aqui ser válida. Dez minutos de uma bela música pode valer o mesmo que um sonho, ou seja, horas, mas que quando despertamos, quando caímos em si, vemos o quão passageira fora. Quando ouvi a canção, tudo pareceu-me durar quase 1 hora, ou até mais, mas no instante que procedeu seu último acorde, exclamei com toda força que restou-me, ah! que desgraça! Por onde se embrenha, a distração, o alívio que antes meu espirito gozou? E, cá estou eu, novamente, dando tapas no rosto. Fora assim que ocorreu. Agora, deveras taciturno, joguei-me a cama, tendo degustado um ímpeto de raiva.

“Quem serei” Repito. “A três passos, adiante, por fim, quem serei?

Um ímpeto e nada mais

D`um ímpeto, vi-me a desvairar todo meu ser. Um gritante silêncio remoía minhas entranhas e deixou-me atiçado; pois que faz eu aqui ainda? Tenho de sair. Tenho de beber, fumar, foder… não suporto mais isso. E nisso, ando de um lado pro outro. Sinto-me sufocado, um algo constringindo meu pescoço, o quarto inda permanece indiferente, esquálido como sempre fora. Droga! – protesto