João, a Obra e o Fim

Inda mal raiou o dia e João estava de pé, de calção apenas, cofiando – por mania -, a barba que cultivara desde o inverno passado. Relutava algo consigo, porém, não dava vasam a seus pensamentos, eram ainda imaturos, ele o censurava. Deixou vacilar por algum tempo, defronte a janela, se do jornal se podia ler alguma coisa. Não importava com a política, tão pouco outro caderno qualquer se não aqueles que tivessem em suas linhas, o desdobramento d`algum crime hediondo. Sua fissura pelo sombrio não o restringia aos jornais, porém era de lá que tirava boas histórias, nas quais, algumas, de tão belos finais teve – ao seu ver -, chegou até a lhe inspirar algo numa manhã dessas. Mas isso não vem ao caso. Não no momento.

Dormira mal; as olheiras o condenavam. O sono leve o castigava; um rosnado que fosse era suficiente para lhe despertar. E gatos – adianta ele -, permanece sendo o bicho de estimação que seus vizinhos mais adotam. Durante toda noite, perdera a conta de quantas vezes acordou. Chegou até, numa dessas, arriscar uma simpatia que fosse, tamanha era sua frustração. Que nada lhe serviu – como era já previsto. Seu humor – claro! – era dos piores. Com isso, João jogava as cartas à mesa e riscava do baralho, a carta coringa.

João, desde a tenra infância, tomara gosto pela coisa, pela arte, pela pintura. Chegou a expor algumas de suas obras. Tivera quem comentasse; porém não passaram disso, não passaram de burburinhos entre amigos e um ou outro de fora. Herdara, quem sabe!, da mãe o gosto. O pai era mais rústico, menos apegado a essas coisas. João, hoje, na casa dos vinte, vivia sozinho. Vivia cada segundo sozinho. Tomara a independência, logo que pintou a primeira oportunidade. João contemplava o silêncio, um pouco mais a solidão, um pouco menos, a dor. Má línguas o chamam de misantropo, referindo a sua indiferença. Mal era visto na rua, quão menos se socializando. Sabemos que tivera ele lampejos de ter mão pr`aquilo, porém, noutros tempos, pois hoje, a incapacidade lhe assombrava. Há dias o tecido permanecia intacto. A tinta quase enrijecida no fundo da lata. Suas outras tentativas não passavam de borrões. Quem sabe o real não lhe saltava aos olhos, nunca tivera mesmo aptidão pr`àquilo?…

No entanto, no íntimo, João sabia onde pecava; só não sabia contorná-la. Talvez isso fosse até normal. Talvez, soberba. Pegou sua câmera – sua segunda paixão -, afim de refrescar as ideias e se embrenhou pelas vielas da cidade donde crescera e inda vive. Por suas artérias, lia-se História: suas feridas, seus sonhos, sua sânie escorrendo esgoto afora. No entanto, focara João em suas curvas, em suas retas, na arquitetura antiga, no ypê que crescia solitário numa praça, na arte que dava cor à parede cinza, ao muro esburacado. O interior era mesmo aconchegante, acolhedor, aquela coisa tímida que lhe conquista. E o conquista com uma singela árvore ao centro de alguma praça, na flor que parece desabrochar toda manhã junto ao sol, o conquista com os passos miúdos, despretensiosos, a coluna levemente arqueado arrastando sandália no calçadão remoendo lembranças de quando inda era moço. Pra muitos, isso só é visível quando visto de fora. Sorte daquele que presenciar isso, que estiver ali e tiver olhos pra isso. E João, por fim, capturara o espirito da coisa, da cidade interiorana. E, pelo o que nos pareceu, lhe serviu pra alguma coisa essa sua investida.

Pois, dum movimento fortuito, diante a tela, João dera inicio ao que viera ser sua mais expressiva obra. Havia encarado uma jornada de 12 horas ininterruptas. Ao fim, a recompensa. João, esgotado tanto no físico quanto no mental, puxou uma cadeira ao centro do ínfimo quarto que lhe servira de ateliê e a fitou, cofiando a barba, por pelo menos meia horas mais. Findo apreço, João caiu exausto na cama. Semblante lívido, ele adormecera. Quando despertou, co`a tela inda no cavalete, dando o ar da graça naquela feição ante ranzinza, João foi à janela, puxou a cortina ocultando a luz que incindia sob os móveis e se apossou dum – sabe-se lá – anseio, um desejo que se confrontava consigo mesmo. Duma natureza desconhecida, quase bestial. Olhos vidrados num único objetivo, João não precisou de cinco minutos para dar cabo naquilo. Seus golpes eram isentos de sentimentos; eram frios, para aquele que se apega fácil às belas coisas, João havia de vez enlouquecido. Era infame. Não tinha um por que, não havia como de ter um por que. Era inexplicável. Agiu sem mais nem menos. Não tinha motivo pr`aquilo; a obra era genuína. Por quê? Porém, assim permaneceu. Sem mais delongas, assim teve de permanecer.

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