Tudo para um bem maior

Gritou a peste meu nome. Era um assombro aquela vozinha que denunciava rouquidão. Um tormento desde que resolvi por vez aceitar o emprego. Mesmo na minha necessidade, me dei ao luxo de ainda querer decidir algo. É desses momentos que você esbraveja em silêncio: já que estamos na merda mesmo… E aceita a maldita escravidão. Caminhei até a sala improvisada que servia de escritório, com aquela voz ainda ecoando dentro de minha cabeça. Reclamou – de praxe – do pouco serviço. Mesmo eu justificando – pois, oras! Se não havia donde guardar a mercadoria, não havia como trabalhar -, nada adiantou. Era o mesmo de ter falado com uma porta. E ainda cobrou que eu fizesse algo. O sangue só não subiu pra cabeça por que estivera naquela hora pensando noutra coisa. Ele me pareceu ter acabado de falar, porém fiquei ali, estacado. Pensei se mandar ele pr`aquele lugar não seria uma má ideia. Eu o fitando protestei: Seu filho de uma puta, aquela merda não tem onde guardar. Essa porra de empresa só sabe abarrotar aquelas malditas docas com esses lixos e nós é que somos culpados? Vá pro inferno! Saí dali. Bati a porta com aquelas palavras ainda me atazanando. Quem dera ter dito mesmo aquilo tudo. Logo em frente havia um bebedouro, dois goles e fui pro banheiro; de meia em meia hora era o que tinha pra ser feito; bebedouro e banheiro. Dava pouco importância ao trabalho. Aquilo me deprimia. Não sabia explicar direito, só não me sentia bem com aquilo. Porém, o que eu havia alegado era realmente verdade. No galpão havia de ter sinal para que o coletor funcionasse, no entanto, a antena ficava longe donde eu costumava ficar, com isso ou não tinha sinal ou o sinal era fraco. Era necessário também espaço nos racks e porta-pallets pra que fosse armazenado os produtos, nisso tudo, a gente enfrentava um dilema, quando havia espaço, não havia produto; quando havia produto, ou não havia sinal ou não havia espaço. Mas o peão não podia ter essa justificativa, aliás, não pode ter nenhuma. Você tem de trabalhar e não pode ficar de papo ou enrolando por aí. Era um caos. A coisa foi se arrastando assim; os dias iam se passando e eu diminuindo ainda mais a produtividade. Chamaram-me de canto noutro dia, no fim do expediente. Pediram que o acompanhasse. Sabíamos o que iria ocorrer. Do corredor olhei pra trás, os que ficavam acenavam-me e eu retribuía. Era o adeus. Era a minha liberdade. Mas ela ainda me custou um bocado de serviço. O chefe havia inventado de dar inicio ao inventário, ou seja, imagina um galpão grande, racks e porta-pallets abarrotado de produtos, você tendo de baixar cada rack ou pallet e checar produto por produto. Trabalhava na Reversa duma loja grande; a segunda no ramo. O setor da Reversa é onde os produtos estragados são devolvidos. Muitos deles viam rasurados, com códigos ilegíveis, isso quando havia. No entanto, tínhamos que dar um jeito. Por fim, deu tudo certo. Duas semanas ininterruptas de inventário resultou numas horas extras pro bolso, um sorriso largo no rosto pálido do chefe, produtos armazenado e stretchados tudo bonitinho. Aquilo havia chegado ao fim. Fiquei sabendo que pra mim não havia mais jeito, blá blá blá e blá blá blá. Peguei minhas coisas do armário e caí fora. A rescisão caiu dentro do prazo. Três dias depois, peguei o uísque, que ainda estava pela metade, coloquei-o embaixo do braço, dei sinal ao busão, desci perto da casa de show e assisti a alguns boas bandas que vociferavam naquele pequeno palco. Era num domingo. Um calor dos infernos. A casa estava lotada. Fiquei lá no fundo, não quis me aventurar ali pela frente. Fiquei na minha, apenas assistindo. O fedor era intenso, a ventilação era precária. Aquele azedo de vômito e suor misturado ao da maconha dava ainda mais charme ao espaço. Lá na frente tudo era tão fácil. Alguns balançavam a cabeça tentando acompanhar a caixa da bateria, outros corriam em círculos, de punhos fechados, socando o vento, por azar, alguns rostos aparecia pela frente. Ninguém estava aí pra bosta, levava o soco, ponta pé e era tudo na amizade. Os porcos rosnando no palco, um cara que mais parecia ter sido molestado por algum bem dotado, espancava a bateria. Um outro se masturbava na guitarra enquanto um estranho, no fundo do palco, não saia da mesma nota desde a primeira música. Era o espetáculo completo. Era o que esse espírito vagabundo anseia. Vão pra merda com esse som fresco recitando Vinicius de morais no violãozinho, meio encurvado, olhinhos dispersos e toda esse nhé-nhé-nhé de mpb. Duas outras bandas ainda estavam pra vir. A noite era dos decadentes.

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