Augusto

Augusto dava cabo ao seu sofrimento – quis nos fazer acreditar. Arqueado sobre o balcão pedia mais uma dose da aguardente, batendo com o fundo do copo no balcão. Porém isso era lá mais manjado do que andar pra frente. Embora fosse Augusto um incontestado bebum, era mais do que sabido que isso nunca falha, pode tardar – que nem nossa Justiça -, porém não falha – diferente, às vezes, de nossa Justiça -; que afogar às dores num copo de nada adiantaria. Se caso sua intenção for de vez esquecer a bastarda, recorrer ao álcool é das piores escolhas. Teve lampejos de que pensou nisso, no entanto, tratou de esquecer virando outro gole goela abaixo. Nessa altura do campeonato nem mais fazia careta quando a maldita descia queimando a garganta como fazia nos primeiros goles.

A noite ia alta quando trançando as pernas, balbuciando asneiras, Augusto deixou o boteco. Seu bafo era horrendo; mistura de aguardente, cachaça com requintes de petiscos, como linguiça e toucinhos. Não via pra onde ia, não tinha rumo. Por pouco não provocou um acidente na via principal do bairro donde estava. Ia aos choramingo, pedindo explicações pra seja lá quem estivesse ao seu lado e acima, como aparentou. Aos trupicos, decidiu de vez que donde estava – num beco que ligava a principal com uma paralela – seria o local que iria ficar: é que na verdade Augusto não aguentava dar mais um passo sequer. Por lá, naquele embaraço todo que o balbucio arquitetava, vacilou em citar o nome dele. Não havia à principio se dado conta, veio perceber quando aquilo ressoou em sua cabeça. Uma lágrima escorreu em protesto. Engoliu em seco um soluço e por fim aquietou-se.

Até cá apenas um desgarrado qualquer se não fosse pelo o que lhe ocorreu.

Havia sido pego pelo sono; boca entreaberta, baba escorrendo, roncando feito um suíno, têmpora quase encostada ao chão se não fosse pelas juntas enferrujadas, ia lá inflando e desinflando os pulmões quando despertou dum susto com as costelas lhe queimando as entranhas. E veio mais um chute. Augusto encurvava no canto. Alguém falava alguma coisa, Augusto não conseguia entender; levantou dum salto e foi pra cima. O por que daquilo iria procurar saber mais tarde, agora porém pensava apenas em acertar uma de esquerda naquele filho de uma puta que o chutava. Em pé, inda meio torto pela cachaça, levou outro golpe traiçoeiro, esse pelas costas. O que havia pela frente sumiu, um breu lhe invadiu a visão.

Quando acordou, primeira coisa que fez foi cuspir fora três dentes que havia em sua boca. Roçou com a língua pra saber quais eram. Um canino e duas panelas; os três do seu lado direito. Custou a acreditar, apertou firme as pálpebras na esperança de ser um sonho. Recobrou da memória algo; alguns flashes lhe surgiram depois de muito insistir. Agora porém era apenas um maltrapilho sofrendo de dores por todo o corpo enfrentando uma de suas piores ressacas. Camisa aos farrapos, sem os calçados, calça imunda, Augusto ficou mal visto, pior do que um vira-lata-sarnento-de-rua, visto que se pudessem, os transeuntes lhe enxotavam esgoto abaixo, sem hesitar, tamanho era o desprezo que havia naqueles olhos que ia junto a cabeça meneando negativamente.

Tempos passados Augusto fora protagonista doutro espetáculo que lhe custou, naquela vez, dois dentes do lado esquerdo. Já não se mantinha sóbrio. A maldita quando não lhe corria na veia lhe fazia um mal danado. Não tardou pra cair de vez nas drogas. O futuro estava desenhado, Augusto somente o fez presente. Perdeu o emprego. A mulher, vencida, caiu fora, não aguentou mais a humilhação. Os amigos ia se esquivando, deixando-o de lado, inventando desculpas esfarrapadas pra não mais chama-lo. Teve então sua primeira overdose. A segunda veio duas semanas após sair do hospital por conta da primeira. Definhava ligeiramente. O rosto já cadavérico, assustava os desavisados que por vacilo o fitava. O fundo do poço dava-lhe apenas uma alternativa, na qual havia optado. E fracassando vagou pelas vielas e becos imundos, dia e noite, pois era o que lhe restava. Lamentava, quando desperto, dava de cara com o sol que havia se erguido por de trás das montanhas.

Da noite que no começo descrevi, o que o levou ao boteco era a morte do filho. Se havia quem pudesse fazê-lo livrar daquela vida, era o pequenino. Augusto o amava. Era seu xodó. Com a morte dele, tudo veio a desmoronar. A incerteza o tomou. Pensamentos contraditórios o assombrava, fazendo-o quase delirar de vez. Caiu aos prantos. O desespero fora seu refugio. Gritava co`a alma na certeza de que aquilo poderia se reverter. E a cada vez que dava a si a realidade, Augusto declinava ainda mais.

Houve quem o recomendasse a igreja. Custou a ir, porém foi. Não é possível dizer que a Igreja teve papel fundamental nisso, porém, aquela quem mais insistia pra ele ir veio ser sua parceira. Um empreitada e tanto, diziam a ela. O álcool não o abandonou tão facilmente. Penou. Porém conseguia se ver soerguendo lentamente na vida. Cada dia veio a ser uma vitória. Aos poucos voltou a desejar ver o amanhecer. Desejava também recuperar alguma coisa perdida. Teve suas recaídas – quem nunca tem? -, no entanto, manteve-se. Estava certo, desde o começo, que era uma disputa que o faria lutar até o fim. E não só ele ia na infantaria, sua agora esposa também.

Do matrimônio herdou três filhos. Os três já crescidos. Com o decorrer do tempo veio o fruto daquela união. Sua filha ainda veio a presenciar algumas das recaídas do pai. Emprestou o temperamento paterno: o que botava na cabeça era difícil de ser deixado de lado, independente de quem tentasse fazê-la mudar de ideia, ainda mais mimada como foi. Assim cresceu. Assim fez quando tornou-se dona de seu próprio nariz – como ela quis se ver. Desde muito cedo botou na cabeça que queria por que queria sair de casa e ter sua vida quando completasse dezoito anos. Porém quando saiu estava em meio a um problema na vida amorosa: o namorado, que já não prestava, estava envolvido num rolo onde um havia morrido. Isso não a fez desistir, no entanto, o desespero dos pais estava no que ela, por amor e imaturidade, havia se metido.

Augusto não era desses que falava aos cotovelos, era na dele, de poucas palavras. Aqui ou ali, abria a boca, e por ironia do destino, era quando fosse preferível o contrário. Alguns o via como desleixado; deixava a coisa correr enquanto quem se queimava com o fogo eram os outros, o que era errôneo pensar, pois Augusto era talvez o que mais se queimava naquilo. Dos filhos herdados, a do meio teve filho. O caçula e a mais velha, optaram em ter filho numa hora mais oportuna, quando tivessem condições pra isso. Dessa neta Augusto redescobriu o amor, pois até do que restara de sua família, era incerto dizer que o amava de algum modo. No entanto, com a pequenina, a festança era garantida, desde quando ela despertava até quando fosse dormir. A lembrança do filho morto era inevitável. Não raro, pegávamos ele aos cantos em lágrimas; no que passou a ser como uma reflexão do que pode ser a vida. Augusto sorria junto a criança; sorria como criança. Quando ela não estava, a saudade batia. Quando ele não estava, a criança chorava. Isso voltou a dar vida naquelas gretas duma tez antes incorruptível em declínio.

 

Era uma tarde ensolarada, me preparava pra algo, não sei ao certo se era pra fazer um passeio ao centro da cidade onde fotografaria algo, ou ir à um concerto, sei que quando o telefone tocou e as primeiras palavras chegaram ao ouvido de quem o havia atendido, ficamos boquiabertos, pasmados, incrédulos, Augusto havia infartado; um infarto fulminante. Enfrentamos três horas de viagem. No dia seguinte, o sepultamento. No dia seguinte, como seria dividido o dinheiro do seguro. Tudo assim, duma hora pra outra.

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