O Inevitável fim de Ricardo

Ricardo é desses garotos como outros. Dispensado do exército não fora preciso largar o emprego com o pai. Começou cedo a pegar no batente. Saia às sextas. Não era raro voltar aos trupicos no domingo, de tardezinha. A mãe negra, se via branca, pálida,, lábios roxos sempre que a sexta chegava. O pai o compreendia. Ricardo era aplicado, não resmungava, não fazia corpo mole no trabalho, trazia orgulho a ele, o chefe da família. A vida de Ricardo passou a ser aquela: casa, trabalho, casa, trabalho e farra; era já figurinha carimbada da zona no limiar da cidade. Cliente fixo duma puta. A mesma que o ensinou a trepar; era garoto, sem experiência, ia afobado, três bombada e ele já gozava. Ela o fez pegar o jeito. Por fim, se apaixonou. A moça querendo se ver livre daquela vida, se aventurou. Ricardo quis mantê-la fora, a moça até que se segurou por algum tempo. No entanto, Ricardo não a prendeu de vez. Saiu de mansinho numa manhã onde Ricardo estirado ao lado, roncava. Será a nossa última foda, garoto, pensou ela antes de ir pra cama na noite anterior. Ricardo sentiu, mas algo no seu interior o dizia que isso iria ocorrer; seu nome é Joaquina, sua mãe. Voltou então a rotina. Teve de procurar outro bordel. Não desapontou o pai no trabalho, sentia-se homem de verdade lá, com o pai, e também no lombo, bombeando, duma puta . A mãe voltava à palidez, lábios roxos. Naquela venturança do filho, a mãe por um lado até aprovava; o filho ia tomando linha. As sextas não mais a preocupava, só que a sirigaita não sossegou o fogo que tinha no rabo. Ricardo chegou a ter outros casos. Se casou. Diminuiu as idas ao bordel. Não largou a rotina. Teve filhos; três. Não chegou a ver o terceiro filho se formando, nem é exagero dizer que nem os viu crescer – ao fim do expediente, quando chegava em casa Ricardo desabava na cama, era assim todos os dias da semana, nos finais, prestava conta a seu status de homem. Véspera de formatura, Ricardo passou mau. Morreu infartado, sem nunca ter visto de fato como é a vida.

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