A Adulteração

Vaga a luz no beco donde acometido duma grave doença estou. Escarro asneiras sem parar; é algo já fora do controle. Apronto uma`narquia tremenda ao pé da janela duma senhora que me joga balde de água fria e esbraveja ao sobrinho que ia distante no sonho pra me fazer calar. De minha moléstia ela pouco sabe; nada sabe pra ser mais exato; quem seria capaz de, na alta madrugada, jogar balde de água fria num enfermo? Sei tão quanto ela sabe sobre minha doença. Nisso é que sofro mais. É algo que açoita-me o interior.

Minh`alma sequer palpita quando a indago; ela já havia ido ao óbito. Pouco vim saber de sua estadia. Pouco saltou aos meus olhos. Pouco a pouco afastei-me.

Que faço, pergunto-me, encharcado. Vou à Érica. Érica me acolhe.

Érica me dá as costas; digo não ser a hora. Érica espera por outro. Não quer papo. Aquilo me deixa ainda mais desolado, triste. Busco trago no fundo do bolso da calça no lado direito, recordo que o deixei na jaqueta, no bolso de dentro. Lanço à boca, encho o pulmão. Tusso com olhos ardendo de fumaça; droga! – Praguejo. Escarro. E escarro. E a cidade parece repudiar meu ato. As pessoas de soslaio intimida-me. Sinto algo análogo a asco. O dedo com unha encravada lateja dentro do All star branco-encardido. Oro a Deus pra que até de seu miasma possa nos livrar. Nos livre pra podermos o livrar de tê-lo criado algo.

De braços estirados eu desalento tateio à procura doutra parte que me sobra. Perco a retina numa esquina passada. Perco a mão pr`aquilo, pra isso, pr`aquilo outro. Dedilho funestamente três acordes menores. Arrisco até um tritão em protesto, mas caio rouco, sem roupa, sem força fraquejo indo de cara ao chão. Lanço ao peito mão direita, o pressiono, o sol raia, a vida… enfim.. prega outra peça.

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Uma resposta em “A Adulteração

  1. Parabéns pelas possibilidades abertas no seu conto. Continue usando seu faro de poeta pra escrever contos. Está funcionando. Só tome cuidado com crases em demasia e vírgulas de menos. Quanto a linguagem, gosto porque é um misto de oitocentista e contemporânea e dessa vez você dosou bem isso. Abraço!

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