Descendo a serra em direção alguma

Lembro-me de quando mais moço, ali pelos 17, 18 anos, onde minha casa servia apenas para dormir e as vezes comer, passava dia, noite, fora, na rua, bêbado, largado num canto junto a amigos, falando merda e bebendo, era o que mais fazíamos. Não era raro descer a pé pro centro, morávamos num bairro distante, atrás da gente já vinha as roças. A caminhada era de 30, 40 minutos, que quando em grupo, com a batida de vinho e leite condensado numa garrafa peti embaixo do braço, ela durava até menos ou até mais, dependia de nosso humor. Não tinha o que ser feito em qualquer parte da cidade. O álcool era pra deixar tudo aquilo menos entediante. A cidade era pequena, todos conheciam todos… E todos cuidavam da vida de todos. O álcool era nosso Salvador.

Ficávamos sentados frente a igreja do bairro de dia, ao nosso lado, bares, e mais bares, e igrejas evangélicas, eles mais pareciam disputar espaço, se abria um bar uma igreja evangélica tinha de ser levantada. Pelas calçadas senhores corcundas trançando cartas e apostando na sorte enquanto a vida rasteja. E nós, ali, frente à igreja católica, sentados, reclamando de sei lá o que, de sei lá quem. Esperando, algumas vezes, resposta da agência de emprego. Sentíamos pena dos cães presos na casa em frente, me lembro bem disso, a mini lanchonete aberta na garagem tinha lá seu histórico; os cães e gatos tinham seu fim premeditado. Era a vida. A vida pacata que não passa. O que passava eram charretes com alguns empoleirados se achando reis e rainhas. Nos deprimia. O dia penava a passar. As horas iam no ritmo da cidade, no ritmo daquele bairro pouco distante do centro, tendo em seu calo a roça. Nos salvava quando algum jogo novo aparecia. Nisso, tínhamos de correr atrás do segundo controle e nos reunir na casa de alguém. Passávamos tardes inteiras ali, jogando, divertindo, perdendo, ganhando, zoando da cara do outro, nos sentindo o tal quando ganhávamos, mas a noite não, a noite colocávamos fim naquilo, o vídeo game era desligado, pois a noite tinha já o que ser feito. Frente ao supermercado fazíamos intera, cada um dava seu trocado, ao todo sempre dava pra uma coca-cola e vodca. Quando não vinho, que era sempre o mais barato, a qualidade era medida no quão nos fazia reclamar da dor de cabeça no dia seguinte. Quando descíamos de bicicleta – por que pagar o ônibus nos tomaria o dinheiro da bebida -, deixava ela na casa de um amigo, que morava próximo ao centro. Era já sabido por ele e pelos pais dele, tanto que nem precisávamos mais pedir, quão menos chamar no portão para podermos entrar. Lá, tínhamos um rito, não começaríamos a conversar enquanto não víssemos o clipe da banda preferida por nós. Eu tinha paixão pelo contrabaixo e aquela canção, com o baixo dando a partida era o necessário para colocarmos em êxtase. Enquanto isso, silêncio, apenas a banda tocando, ninguém interrompia. Eu no meu canto marcando tempo batendo o pé no chão, levemente, sem quase fazer som, as vezes alguém pegava as baquetas e fazia alguma virada no ar. A Música ia… depois disso, trocávamos ideia. Nosso amigo era fissurado por guerra. Estava sempre estudando alguma. No quarto alguns objetos que lembrava de sua fissura. Nos despedíamos e tomávamos o rumo pro centro, a pé. A noite começava ali. Começava a nos iludir. Era sempre uma noite decadente, apenas o álcool flertava em nossas veias, nos colocando no centro de tudo, nos fazendo crer ser aquela a noite de nossas vidas. Era sempre assim. E nunca era a noite de nossas vidas. Sabíamos que faltava algo, sempre falta, nunca estávamos satisfeitos, e acho que nunca devemos estar, estar satisfeito é coisa de tolo, e ponto. Queremos sempre mais, num exacerbado consumismo, num desenfreado anseio de que a felicidade está naquilo que nos falta, naquilo que nos escapa a mão, naquilo que vai logo ali, naquela esquina, naquele bar, naquela igreja, naquela praça, naquele supermercado, naquele açougue, naquela lanchonete, naquela viagem, naquela compra e naquele… , e naquele… , e naquele… , e nunca nisso. Os dias passavam. Iam passando. Alguns, vendo a primeira buceta, enlouqueceram. Quis casar, era a mulher de suas vidas. Teve um que se esqueceu de interromper o coito e gozou dentro, pronto, tava feito a merda. Tirou a mocinha do berço e lhe prometeu uma vida. Era o fim. Ninguém mais bebia, ninguém mais saia, ninguém mais vivia. Dizem que enfim amadureceram…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s