Roberto

Quis ainda acender a vela naquela noite em que acabara a energia elétrica, segundo antes souberam, em razão de algum ajuste necessário na rede, diziam. Que pouco isso importava pra Roberto, que apenas quis ler. Sua mãe o repreendera, alegando não forçar a vista. Então que Roberto a ignorava. E nisso fez valer sua vontade maior. O bruxulear da vela violava o breu de seu quarto e podíamos vê-lo arqueado sobre o livro que emprestara da biblioteca. Se tinha dificuldade para ler, isso era claro, tão mais claro quanto sua impaciência, que agora lhe dera asas e deixava-o flertando com o pensamento alheio. Tanto que, vez ou outra, ouvia suas indagações sem mesmo ele notar que estavam sendo ditas em voz alta.

Roberto, pego quase que de surpresa, numa conversa amistosa entre amigos, havia se deparado com uma questão que lhe aperreou, desde então, o sossego. Nisso, se viu de imediato afrontado por ela.

– E que faz você ter certeza disso? – Perguntou um amigo. No que o outro, respondeu.

– Certeza não tenho. Digo ser uma crença, porém, não uma vaga crença e sim, uma crença assegurada por fortes argumentos.

De imediato, como pôde lembrar, Roberto distanciou a atenção ao rumo que dera a conversa e se prendeu naquela que lhe era uma questão nova. Certeza e crença, colocadas lado a lado. Roberto repetiu aquilo algumas vezes, deixando que as palavras se prendesse na memória, e, que, de algum modo, pudesse saltar aos olhos alguma resolução. Sabia que isso não viria. No entanto, a questão não se desprendeu dele.

Em casa, já a 3 dias, sem ao menos notar quando chegara a sexta, quando passava lentamente o sábado e por fim, aquele enfadonho domingo que bocejava desdenhoso, seus pais se preocuparam. Por um lado sentiram-se bem, em razão dos excessos da vida boemia que levava Roberto, no entanto, aquilo fugia bastante do costume do filho. E isso os preocupava, procurando saber o que acontecia.

As velas, desde então, tornaram-se suas companheiras. Pois que, se tudo ocorresse como desejava a companhia elétrica, iria se ter outros dias de interrupção na rede. Nisso, nos dias que era possível, Roberto procurava por sites e blogs da internet, e isso fez com que ele se deparasse com um mundo novo, digamos assim. Inda não se tinha dado conta de tais indagações. Quando desfrutava de alguns pensamentos que ele adquiria, Roberto nunca havia colocado os olhos nesse ponto crucial. Tudo se passava despercebido – hoje, ele mesmo o advertia -, passava despercebido por algum vício do senso comum.

De imediato, foi lançado à Platão, onde diz ter sido os primórdios da epistemologia. Daí então, foi avançando na medida em que a questão fluía sob o tempo, sob a cada novo intelecto. Chegou até a abdicar de tudo. Deu de cara com Descartes. Aliviou-se por saber que então existia. Num fragmento de Pessoa, colocou isso também em dúvida. Pois que certeza tinha de sua existência se a sua percepção de que existe pode também não passar de uma percepção assim como o tato, olfato…? Depois de muito se questionar, caiu no sono.

Alto da noite, debruçado sobre a mesa, Roberto despertou de um salto, quando sentiu em seu braço direito, o respingo de cera que escorrera da vela . Frente a janela ele se estacou. Fitando o horizonte negro. O uivo na noite dava-lhe fôlego às divagações. O guizalhar do grilo fomentava seu ceticismo, o fazendo perder de vez o sono. Bocejou. Ajeitou-se na cadeira e acendeu outra vela. Voltou aos estudos, sem antes deixar de assistir, de seu quarto, a alvorada que havia enfim despontado no topo da montanha, paisageando sua acinzentada cidade. Lamentou “Será que estou mesmo vivenciando isso?” e isso o deixou inda mais afinco ao problema.

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A Confissão

Devo confessar, pois assim, possa ser melhor a nós dois. Devo confessar pois há algo que me constrange o peito, deixa-me ofegante. Mas, favor; não tape os ouvidos agora. Devo confessar, e confessando-lhe, tirarei de mim esse fardo. Foge de minhas intenções ferir-lhe – ainda mais. Escute-me. Não descordarei do que seja lá o que vier a fazer. A entendo. Tão bem que não mais tentarei encobrir de ti, isso. A dor realmente é a que nos cria, contou-me outra manhã gélida dessas. E por estar criado nela, tentemos apazigua-la o quão pudermos, completou. Pois bem…

Acalme, acalme… amor… mesmo sendo difícil. Acalme. Fiquei ensaiando noite inteira. Sim! por isso estive estranho. Calado e taciturno. Ansiei estar longe, tão distante… mas, cá, permaneci. Embaixo do mesmo teto que você. Mas tive de sair. O quarto abafava-me, a negritude nas luzes apagadas lacerava-me, o ar que inflava meus pulmões, sufocava-me, as palavras caíam-me indigesta – a sala refugiou-me.

Por isso a solidão. A solidão que me deixasse absorto nos dias passados. Havia lhe dito; Ah! Querida! Volte para o quarto, cubra-se e adormeça. A manhã nascera. Não importe comigo hoje. Tente isso. E você se foi, enquanto fiquei implorando a mim mesmo: Faça sumir de ti essa ruga profunda. Onde se encontra aquela tez macilenta porém vívida de outrora? Entender nada era impossível, sempre entendia algo. Sim, não esta errada deveras. Há algo que me constrange o peito, deixa-me ofegante. Mas…

Ah! Que desgraça que o destino reservou-me. Privou-me de ser-lhe franco. Privou-me de admirar sua alegria, seu sorriso fácil, e dócil. De me reconfortar com afagos e mais afagos inda na manhã primaveril. Sim, querida! Até então meu sorriso era falso. Sente-se! O que agora conto-lhe é mais do que uma confissão. Meu espírito derrama-se ao leito. Tenho o sepulcro, ao meus pés, com seis palmos de privação, de isolamento, do nada, do fim.

Desde que me ocorreu, a culpa lacerou-me a carne dia após dia, hora após hora, minuto após… O sorriso não reluzia com mesmo. Agora apenas esse amarelado concebo. Cada manhã é o nascer da dor. A dor que aflige-me, pior que outra dor qualquer. Seus olhos, inocentes, ingênuos, queria mais que tudo que descobrisse por si só e me perdoasse. Mas não. Eles continuavam inocentes. E isso ardia como a chama arde em arbusto seco em campo aberto. A amei. A amo. Mas que tudo, você sabe. Ocorreu por um deslize. Por um momento de fragilidade. Mas não por isso que temo; esconder de ti, mentir a ti foi meu pior equívoco. Sempre de ti cobrei, e agora eu, a traí.

Confiar… traição… por que esconder?… acreditar… são as palavras que vagam, latejam aqui dentro, são febris. Não a olhava nos olhos. Pedia, insistia para olha-lá, mas… Fitei a imensidão que encarcerava-me forçosamente num canto fétido. Devo confessar, a ouvi dela, resguardando algo naquela inevitável confissão, eu não mais… e o silêncio veio, pois todo ruído, confissão, choramingo, emudeceram. Apenas fez ressoar, por esse cubículo inóspito, o bater da porta e o salto alto golpeando violentamente escada à baixo.