Eu, o abutre

Fiz eu um voo rasante. No qual nada me rendeu. Sou um abutre, um alarde em selvageria de cotovelos rotos. Agarrei-me num galho e olhei sobre o ombro o vazio inato que a vista havia. Cá, garras encravadas em galhos secos, lá, um deserto há. Tenho ao peito, estampado, ossos que saltam aos olhos. Sou faminto. Já não mais sou o que era. Devoro-me! Caço o que não há. O campo está cheio. Há chifres que se suspendem aos céus, cabras que pastam, cobras que serpenteiam, mas não há o que a mim me alimenta. Regurgito o que farejo, o que vejo. Regurgito! Faz-me tudo isso, um mau danado, contesto.

Então que defronte a inaptidão que ali se instalou, na qual o ímpeto balbuciou o nefasto impregnado, eu, que com asas despenadas, olhos turvos, arqueado sobre o rebanho, fiz-me ausente do mundano imundo que o vejo, o leio, escrito em letras gritantes, grafia incorreta à manchete d`um jornal qualquer.

Rasguei-me a carne, bebi de meu próprio sangue. Encontrei-me maçante ao leito. Em prantos. Eu, um errante de estirpe banal fora vencido pelo aeon que não me convém. Vencido! Severamente, vencido fazendo-me recolher então, à minha insignificância que de tais tempos, produz.

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Desfragmentação do velho

Assisti, na primeira fila, coisa que não imaginara fazer, o fiz, e digo, assisti à um carnaval dos mais requintados vexame do homem. O desfiladeiro se deu ao dia que ele olhou para si, na apoteose, mendigou, coitado homem! Não se fez valer o que a si é, por mais que valia não há, ele nem havia chegado a borda disso. No lamaceiro que, em olhos fadados, se viu, em areia movediça até as olheiras pesadas de noites a festejar, que teve, não mais riu-se como pode, farreou como deve, não mais fudeu como a um animal descontrolado se fode. Enraivecido, prestou-se a ser moribundo em terras desgarradas, em terras que não se importa com o que se tem. Se viu deslocado, do social, do habitual, da vida vadia que o teve, que teve. Insaciável rascunho, rabiscado a lápis desapontado, grafite com pontas falecidas, sobre o papel amarrotado, lançou-se linhas curvas, em tons claros, viu-se nu. Angustiadamente, nu.

Rabiscar-se novamente, quem dera! Trajou-se no crepúsculo e fez do amanhecer seguinte, um novo amanhecer.

Quanto otimismo carrego, maldição? Talvez?!

O amanhecer veio, junto a ele, o homem. O novo homem. A nova besta ambulante, isso não é o que desejo. Vejo-o ainda desconexo, sofrendo de espasmos de outra vida, mas besta ainda não. Os que se deixou levar, amparado por um desejo quase que oculto – a olhos deles próprios devo dizer, pois a outros, tão mais claro isso ficou -, se vê em maravilhas na soberba que ao peito, feriu-o. Meu pessimismo nasce nesse ponto que transcrevi. O crucial travestido de forma errônea, em colarinho desfeito, gravata em nó tosco, terno em corte mascado por tesouras cegas. O fio da navalha de dentadura sobre a face pálida, o arranhou e nada fez jus ao que um dia, prestou-se a ser, sua virtude não mais é. Nem a nossa agora é. Não levaremos mais os preceitos do castigo divino, nada carregaremos, conquistaremos! Nesse ponto, o otimismo bate a porta novamente.

Maldição, estou quase certo disso!

Adeus, até o próximo crepúsculo! E que esse demore a chegar, esperemos.

O homem na contramão

Deitei-me, e isso significa, me encolhi ao canto que fedia a urina, mas estava seco e isso, podemos dizer que tive um certo conforto. Era tarde da noite, visto que a cidadezinha já se encontra deserta. Um silêncio que me rendeu boas horas de sono.

A noite se foi.

Quando despertei-me, já com alguns saltos altos golpeando o asfalto em direções diversas, homens de ternos, corte fino, como bem me disse outro dia, Jorge, um ex-ajudante de costura, passeavam em sua elegância na pequena cidade do interior, os saltos altos por vez, acompanhava-os. Levantei-me e deixei ao lado, o pedaço de cobertor que ajudava-me, como pode, no frio que enfrentei na madrugada.

Jorge já não se encontrava no outro canto, onde por costume, passava a noite.

Teria, Jorge, ido embora?

Perguntei-me isso, pois Jorge já havia me dito outro dia, o seu desejo. Um homem já de idade. Ranzinzo. Barba à séculos sem ao menos avistar uma lâmina se quer, aquilo já chegará ao peito marcado pela fome, seco, podia já ver os ossos sobrepostos, apenas com uma fina estampa de pele enrugada escondia a brancura do desespero. Não aguentara mais. Pedir esmolas no parque, já não mais o animava. Esperar o almoço, lá pelas três da tarde, era sofrimento por demais, o dono do restaurante não mais queria o ver por perto, desde que alguns clientes reclamaram da presença de Jorge aos arredores, Jorge se viu desamparado. Não queria mais sentir o aroma da carne assada, do feijão, do arroz, de nenhuma outra especiaria daquele restaurante. Jorge desistira da vida. Desistira por diversos outros fatores, não só pela comida. Não chegou a me contar, mas sabia que havia. Havia algo atrás da meia dúzia de palavras que Jorge proferia por dia, e isso, nem ele nem ninguém poderia desmentir.

Não o vi naquela manhã, nem durante a tarde. Jorge havia sumido.

Pela tarde, vaguei próximo a estação. Lá fiquei um bom tempo. Encontrei algo para comer. Uma senhora me vendo em tal estado, por solidariedade, deu-me algo. Não era sempre que isso acontecia. A agradeci. Noutros dias, a procurei por ali. Mais nada. Cheguei a ver outro dia, ao longe. Ela não tinha me visto.

Era por volta das quatro e trinta e cinco da tarde, moças abanando algo afim de dissipar o calor, rapazes o mesmo. Era tarde de verão e o verão nessa cidade, é coisa que se aproxima do inferno, de tão insuportável que é.

Num canto, fiquei. Encostado numa pilastra da estação de ferro.

Algumas pessoas estavam ao meu lado. Ora olhavam ao relógio ora para a linha do trem. Conversavam. Riam. Surpreendiam-se com alguma notícia dada pela amiga ou pelo amigo ao pé do ouvido. Enraiveciam-se ao celular e só davam conta que já estavam gritando, quando já era o centro das atenções. Nervosinho ele, uma jovem próximo, disse-me. Não escondi um sorriso maçante. Ao fim da risada, voltei ao vazio em meu campo de visão. Voltei ao nada.

Embaraçado, no anoitecer, veio um homem, correndo, desesperado, sem controle algum, com a convicção estampado em seu rosto. Foi apenas um barulho que ouvimos. Alguns ficaram em choque. Levaram a mão a boca, enquanto algumas mães, tentaram tapar os olhos dos pequenos. Os que estavam próximo da linha, ficaram marcados. Apesar da pouca velocidade, o trem que ainda tentou frear, não conseguiu evitar o pior, o corpo então se chocou. E se foi para debaixo da máquina de ferro.

Fiquei ali, no canto. Mais um atordoado – pensei comigo -, mais um que conseguiu se livrar da vida.

Retirei-me quando tudo já voltara ao normal. Apenas algumas manchas de sangue poderiam ser vistas, e isso, somente para os mais atentos e curiosos.

Cheguei onde iria passar mais uma noite. Jorge não estava. Não apareceu, disse me um outro senhor que, nas costas, tinha um saco cheio de alguma coisa.

– São latas? – Perguntei eu.

– Sim.

Aquele homem então, se foi. Carregando nas costas, o saco. Um saco de latas.

Recolhi ao canto. O fedor de urina não sumira. Nunca irá sumir. Sei dela pois quem passa em frente, franze a testa em sinal de reprovação. Eu já não mais sentira aquilo. Chegava ao local, dormia, acordava e voltava ao anoitecer, para então, dormir novamente, e só. Não sentira nada, nenhum odor, tudo para mim, parecia normal.

A noite foi-se indo e junto a ele o sono. Que alias nem chegou a ir, pois nem chegou. Fiquei de olhos abertos. Não dormi.

Do jeito que ao canto me pus, fiquei, até o amanhecer. O sol surgiu. Os pássaros também. A névoa se foi. Os passos surgiam, aos montes, golpeando o asfalto. Os homens de terno, corte fino, apareciam.

Menos Jorge.

Esse nem dava mais como desaparecido. Certo que tinha morrido.

No final daquela semana. Num sábado, encontrei-me caminhando por outros cantos. Um beco adentrei. Era A rua, disse-me.

Lá, num boteco, fiquei, em frente, parado. Veio um rapaz. Um não, mas dois. Empurram-me. Tiveram cuidado. Pelo menos isso. Pediram-me para que não chegasse próximo. Espantava os clientes, um deles virando as costas, murmurou. Fiz que sim com a cabeça mas que não, com a mente. E isso era inútil. Quem se importa com a ideia, se o portador daquilo, era eu, um mendigo, um maltrapilho que fedia a urina, aos trapos e que não tinha “bons modos”?

Vivo a beira da escuridão, a escuridão que povoa esse pequeno pedaço de terra, envolvido pelas montanhas, cercado pelos espinhos, que lacera em silêncio e faz moldar o exímio ser que nisso deve-se viver. Sou aquele que o espinho mutilou, rasgou a carne tão violentamente, que o sangue faz aos olhos dos outros, tamanha repulsa, que tenho de me afastar, calado e sem que notem que ali estive. As cicatrizes não vieram, tenho ossos expostos e a dor que me tranquiliza, apenas. Sou o que não querem ser, sou aquele que serve de exemplo. Fazem de mim, um retrato, emolduram-o e em plena centro da praça, purgam-me Molestam-me e estampam à próprio punho, o que de mim faz ser, o que sou. O que veem desta caricatura.

Retiro-me, pois a noite cai. Dou um adeus e lhes desejo, uma boa noite, enquanto ao pé da catedral, caminho. Lá, sobre o ombro, o pedaço de cobertor para enfrentar comigo, o frio da madrugada. O frio dos meus piores dias, enquanto a cidade, festeja a sua indiferença.

Encolho-me, enfim, adormeço…